Lilian Maggio: santiaguense desbravou a Antártida

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Lugar de mulher é onde ela quiser. E esse lugar pode ser também o continente antártico, num clima bem abaixo de zero grau. Foi lá onde a doutora em Ciências Biológicas Lilian Pedroso Maggio viveu 21 dias de sua vida, os quais lhe renderam uma experiência que vale por uma vida inteira. Ela esteve no programa “A Pauta é”, de Sandra Siqueira, e relatou um pouco dessa aventura.

Nascida em Santiago, Lilian viveu parte de sua infância no interior de Itaqui. Lá, ela gostava mesmo era de “andar sujinha” mexendo na terra, no jardim, na horta da escola. Gostava de cultivar plantas, de fazer chás e de saber identificar os nomes das plantas pelo nome científico, algo que ela havia aprendido com uma professora.

Superando desafios

No decorrer de sua vida acadêmica, procurou sempre estar se desafiando. Foi assim que iniciou o estudo que lhe levou à Antártica, sob a sugestão e orientação de um professor que já esteve no continente 32 vezes. No voo que fez para a Antártica, ela era uma das poucas pesquisadoras a bordo. No entanto, ficou feliz de saber que quem pilotava aquele avião cheio de cientistas era uma mulher, que fez um pouso tranquilo na Antártica.

Ambiente inóspito

Nos 21 dias em que esteve no continente, Lilian se viu num ambiente inóspito, muito frio, que a obrigava a usar várias camadas de roupas quentes e sapatos pesados. Todos dormiam em barracas, sendo que numa mão ficava sempre com uma lanterna, na outra um canivete. Precaução no caso de uma tempestade.

Estudos

Na Antártida, ela realizou estudos sobre a vegetação, que apresenta 400 espécies de liquens, 111 de musgos e até mesmo duas únicas espécies de plantas com flor, que suportam as temperaturas negativas e despertam a curiosidade dos cientistas. Lilian pode até mesmo testemunhar o derretimento de geleiras, sinalizando efeitos do aquecimento global.

Muitos desafios e privações

Entre os desafios de estar num acampamento com 14 pessoas desconhecidas, Lilian lembra que era preciso estar sempre agasalhada, com as mãos e pés cobertos, além de luvas, toucas e proteção para as orelhas. As refeições eram preparadas por eles mesmos, com seus equipamentos e suprimentos (arroz, macarrão, carne de frango etc). Da mesma maneira, a montagem e desmontagem de barracas e outros instrumentos eram responsabilidade de cada um, que teve treinamento prévio para isso.
Não tinha como tomar banho e a higiene era feita com lenços umedecidos. Mas, segundo ela, tudo isso exigia esforço mas era tranquilo. O ruim mesmo era a hora de ir ao banheiro, pois todos os dejetos precisam ser colocados em tanques específicos, pois nada poderia ficar para trás e contaminar o ambiente. Nem mesmo pedaços de comida.

A exaustão

A desorientação cronológica também causava efeitos de privação de sono, afinal, não chegava a anoitecer na Antártica, que apresentava apenas um crepúsculo de entardecer. Dormir era algo de poucas horas. Nestes 21 dias vivendo na Antártida houve também momentos de aflição, em que Lílian chegou a se jogar no chão, exausta. Mas foi puxada pelo seu professor. E houve também um dia em que saíram para uma expedição em que o clima mudou de repente e uma neblina espessa impedia que enxergassem além de poucos metros, dando uma sensação de claustrofobia e insegurança. Pra piorar, o GPS havia falhado. Ficaram perdidos por quatro horas, caminhando por mais de 15 km, até que reencontraram outra equipe e conseguiram voltar ao acampamento, graças a experiência do professor-orientador Jair Putzke.

A cientista ficou 21 dias num ambiente inóspito, abaixo de zero, muito frio, enfrentando tempestades, privação de sono, sem poder tomar banho, cansaço mental e físico, precisando manter o foco e realizar os seus estudos. O que foi mais difícil disso tudo? Nada disso. Para Lílian, a família foi o que mais lhe fez falta. Sua comunicação com sua casa se dava apenas uma vez por semana, em poucas linhas. Por isso, o retorno ao Brasil lhe alegrou mais do que tudo. Havia vivido e vencido uma experiência incrível, que poucas mulheres no mundo viveram.

Missão conclusa, Lilian segue debruçada nos estudos, com o sonho de passar num concurso e poder dar aulas na universidade. Da viagem resultou uma cartilha elaborada por ela mesma, com parceria de Fernando Augusto Bertazzo da Silva e Jair Putzke com o nome: Nina em uma viagem congelante. É muita história para contar.

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