
Santiago – Numa era em que as mulheres consolidam a sua força e o talento, como será que uma freira vê a questão do empoderamento feminino? Pois a jornalista Sandra Siqueira fez essa e outras perguntas para a irmã Inelda Maria Balestrin, que atua na Rede Verzeri e é uma das freiras residentes do Colégio Medianeira. Com ela, também estava a professora Nélia Ribeiro Fagundes que visitava Santiago. Inelda é graduada em Teologia e Psicologia e residiu em Roma, na Itália. Nélia é graduada em Pedagogia e em Ciências Religiosas e Teologia Popular.
Ouvi o chamado de Deus muito cedo
Inelda diz que descobriu a vocação religiosa aos seis anos, após fazer a primeira eucaristia. Ela é natural de Tenente Portela e pediu aos pais para se tornar uma irmã do Sagrado Coração de Jesus, fortalecendo a sua espiritualidade. Conta que ao longo da vida, teve momentos de dificuldade, de sofrimento, mas nunca pensou em desistir do rumo que havia escolhido. Inelda gosta muito da área da Educação e está morando em Santiago pela terceira vez. Para ela, um povo afetivo que olha para o próximo, enxerga as pessoas, demonstra carinho e respeito. Inelda é muito orgulhosa do que o Colégio Medianeira representa.
As pessoas precisam ser mais humildes
Em relação ao protagonismo das mulheres, Inelda diz que sempre lutou por isso. E se sente entusiasmada em ver o que está acontecendo com as mulheres demonstrando seu valor, suas capacidades e se mostrando preparadas. Para ela, o que está faltando para as pessoas é a humildade, em entender que somos humanos, iguais, que precisamos ajudar e sermos ajudados, viver a igualdade e a fraternidade.
Os efeitos da pandemia
Lamentou os efeitos da pandemia, não só das mortes, mas também do individualismo. Ela estava em Roma na época que a pandemia iniciou e acompanhava as movimentações do Vaticano e do Papa Francisco, lembrando da famosa missa em que ele estava sozinho na praça de São Pedro. “O ser humano precisa se purificar, rever seus valores. Achei que a pandemia resultaria nisso, mas tem pessoas que aprenderam e, para outras, não significou nada”, considerou.
Rotina de freira
Sem usar o hábito, ela gosta mesmo é de roupas despojadas, mas também possui o uniforme mais tradicional. Diz que a vida das freiras é uma alegria e que elas seguem uma rotina diária de levantar cedo, ter o momento da religiosidade e depois, a dedicação à rotina da escola. Gostam de cuidar da saúde, cozinhar, acompanhar a vida comunitária, ver filmes. E não é porque fazem parte de uma congregação que não se estranham, de vez em quando. “Onde há seres humanos, há também as diferenças. Às vezes temos nossas rusgas. Mas precisamos, sempre, buscar o entendimento”, diverte-se.
Missão na África
A professora Nélia esteve em missão na África durante um tempo. Deu aula em aldeias e ficou encantada em ver como eles acolhem muito bem os professores. Lá o ensino é pago, mas as aulas que ela ministrava eram gratuitas, havia fila às 5h de pessoas querendo aprender.
Mesmo com fome, eles sorriem
Relata que a miséria que eles vivem é maior do que se imagina, mas ainda assim vivem felizes com o pouco que tem e são gratos pela vida. Para eles, um filho é uma bênção. Nessa Aldeia, não dão nome às crianças antes dos sete anos, pois não sabem se irão sobreviver. Até os sete, eles comem se tem, os mais velhos (47) comem se sobra. Por isso, a fome é o que mais mata.
As mulheres lideram
Apesar desse cenário, a esperança deles é muito grande e amam viver. Lá, as mulheres exercem o papel de liderança e sustento, enquanto os homens cuidam da proteção. A agricultura e a venda do que se produz é o que os mantém. Nélia diz que espera voltar um dia e concluir a sua missão por lá.
Uma “quase freira”
Assim como a Irmã Inelda, a professora Nélia se considera uma mulher empoderada e livre nas suas escolhas e responsabilidades. Não teve filhos por opção e brinca que não se tornou freira por causa de um dos três votos: a obediência. E vai mais além, quando alguém lhe pergunta o que fará quando ficar mais velha ela tem a resposta na ponta da língua. “Não vou incomodar ninguém. Só me deixem com o controle da TV na mão e um frigobar com cerveja do lado”, brinca.



