
A pandemia tem gerado um aumento preocupante no número de adolescentes não alfabetizados. Diferentemente das crianças pequenas, corrigir essa situação se torna mais desafiador devido à falta de tempo e à presença de distrações que podem desviar os alunos do caminho da educação. Quando um estudante chega ao 6º ou 9º ano sem saber ler e escrever, suas perspectivas futuras na escola são gravemente comprometidas.
Durante os debates do projeto “Reconstrução da Educação”, promovido pelo Estadão e que busca discutir soluções para a escola pública brasileira, todos os secretários de educação expressaram grande preocupação com essa questão. Mesmo antes da pandemia, já se falava sobre adolescentes de 14 anos que não conseguiam compreender textos simples, mas a situação se agravou significativamente.
Uma das questões identificadas é a falta de professores especializados no ensino fundamental final (do 6º ao 9º ano) capazes de alfabetizar os alunos. Nessas séries, as aulas são ministradas por professores especialistas formados em áreas como História, Biologia e Geografia. Algumas redes de ensino têm tentado solucionar essa lacuna, buscando a contratação de alfabetizadores para os adolescentes em regime de reforço, mas nem todas possuem recursos ou estrutura adequada para isso.
É importante destacar que o desafio de ensinar a ler e escrever não se restringe aos adolescentes. Mesmo os professores que lidam com crianças mais jovens têm enfrentado dificuldades, como indicam os resultados insatisfatórios da alfabetização no Brasil, mesmo nas idades consideradas adequadas, até o 2º ano.
Recentemente, foram divulgados os resultados de um exame internacional, o Pirls (Progress in International Reading Literacy Study), no qual o Brasil participou pela primeira vez. O país ficou entre as últimas posições, juntamente com Kosovo e Irã. A média geral brasileira foi alarmantemente baixa, com destaque para o fato de que 25% das crianças de 9 anos não são capazes de localizar informações em textos simples, uma habilidade que é comum entre os alunos de países desenvolvidos que realizaram o teste.
Diante dessa realidade preocupante, o Ministério da Educação (MEC) prometeu lançar um pacto nacional pela alfabetização em junho. O objetivo é unir esforços do governo federal, estados e municípios para garantir que as crianças aprendam a ler e escrever no Brasil. O modelo bem-sucedido do Ceará serve de inspiração, com os governos estaduais apoiando as prefeituras por meio de formação de professores, material didático e incentivos para escolas mais vulneráveis. No entanto, é essencial que esse pacto também inclua medidas para ajudar os adolescentes, assegurando-lhes a oportunidade de recuperar a aprendizagem. Afinal, é fundamental evitar que mais crianças e jovens sejam privados do direito à alfabetização.
Fonte: Estadão



