Escola cívico-militar: uma impropriedade

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Valdo Barcelos – Professor e escritor – UFSM

Um país que tem como patrono da sua educação o educador brasileiro e cidadão do mundo Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), não merecia estar passando por uma discussão tão bizarra, justo, na educação. Refiro-me a essa polêmica sobre a manutenção das famigeradas escolas cívico-militares. Adianto que não tenho nada contra a questão cívica. Afinal, a dimensão cívica da cidadania, em uma democracia, tem que ver com o fato de incentivarmos que desde cedo as crianças assumam, de forma generosa, a responsabilidade de devolverem ao seu país aquilo que dele receberam. Isso para mim é civismo.  Isso sim pode ser feito nas escolas na Educação Básica do Brasil. E deve ser feito por nós professores (as) que são – até prova em contrário – os profissionais que estão habilitados para trabalharem com a educação escolar. Sim, pois, profissionais de educação são os(as) professores (as); profissionais da engenharia são os engenheiros; profissionais da saúde são os enfermeiros, médicos, psicólogos, fisioterapeutas, dentistas…; das ciências agrárias são os agrônomos, veterinários, engenheiros florestais, zootecnistas, enfim, no Brasil o exercício das profissões é regulamentado por lei. E não para servir de “bico”. Mais triste ainda é ter que escutar alguns dos argumentos utilizados por àqueles (as) que sejam mantidas e até ampliadas essa excrescência chamada, demagogicamente, de escola cívico-militar.

Dia desses um militar que virou parlamentar defendeu, brava e ignorantemente, que uma das qualidades das escolas cívico-militares era devolver a escola a disciplina e a obediência. Sua excelência esqueceu-se que essas “qualidades” são os dois pilares das Forças Armadas e de qualquer organização militar. Sim, pois sem disciplina e obediência –  decorrentes da rígida hierarquia militar – seria impossível que meninos de 18, 19 ou 20 anos aceitassem matar, por ordens superiores, outros meninos da sua idade que nunca viram antes e que nem sabem os motivos pelos quais os estão matando – isso é guerra. Já educação não rima com hierarquização, com obediência, com disciplina, com competição. Educação tem que ver com cooperação, colaboração, aceitação mútua, respeito, confiança, generosidade, acolhimento, enfim, educação tem que ver com amor. Citando novamente Freire, lembro que certa ocasião fomos apanhá-lo no aeroporto em Porto Alegre, quando veio fazer uma conferência. Uma repórter perguntou a Freire: Professor Paulo Freire, o que os professores (as) esperam dos governantes? O velho coçou a longa e desgrenhada barba e respondeu mansamente: “…sua menina, dos governantes nós professores esperamos pouco, apenas que nos respeitem”. Precisa dizer mais? Eita nordestino da mulesta esse Freire!

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