João Lemes

Sim! Vendi saquinhos e osso nas ruas. Não tenho orgulho disso, mas o que não me matou, me fortaleceu

Cuidado! O ser humano mau caráter não está somente dentro dos outros

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(por João Lemes) O mundo será sempre um lugar onde se resolve um problema e se cria outros tantos. Exemplo; alguns pensam que graças ao politicamente correto, tudo se resolve. Querem ver? Embora o pessoal pense muito em ajudar os outros, em ser mais humano, certas humanidades só são boas para alguns. Reflito assim após viver numa família muito pobre. Ainda criança, era obrigado a vender plásticos nas ruas para comprar ossos nos açougues. Quantas vezes trabalhei só pela comida e, ainda assim, quase passei fome.  

Agora vejam essa: em São Paulo e em outros centros, já vigora uma nova mania. Jovens que precisam morar na cidade grande para estudar, tentar melhorar de vida para não ser como seus pais, que ficaram na miséria lá na roça, se submetem a esse senso de humanidade. Então, ganham casa e comida e até algo mais, desde que cuidem de algumas crianças, incluindo dar aulas a elas. Crianças essas que, na visão dos pais, são perfeitas. A princípio, isso nada mais é do que um agir em nome da humanização, pela ideia de que todo mundo precisa se ajudar etc. Entretanto, a “boa-nova” segue desumanizando e bastante; na verdade segue escravizando.

  • Então a nossa sociedade é assim. Cada vez que você resolve um problema, você cria outros.  Isso parece nunca ter fim. Até porque, onde há pessoas, há problemas. E se não tem problema para resolver a gente inventa. Chega-se ao ponto de pensarmos que sem problema não existe vida. Tem fundamento.

Nesse ir e vir da vida, e estudando o pensador Luiz Felipe Pondé, dou-lhe certa razão quando cita Aristóteles e diz que virtudes são práticas. Não adianta você pensar que é honesto, parecer que é honesto. Não basta você dizer “eu tenho meus valores”. Na verdade, você não tem esses valores. Tais virtudes são postas ou impostas pela sociedade. Seja por bem ou na marra (pela lei). Como conceitua Pondé, “nós somos cozidos nos valores”. Não nascemos com eles.

Pela manhã, alguns até se olham no espelho procuram não pensar no que é o ser refletido para não ter vergonha de si mesmo. Claro, eles acreditam que o mal está nos outros, que o inferno são sempre os outros, como asseverou o francês Jean-Paul Sartre.

Esse é o verdadeiro ser humano que não está dentro dos outros apenas. Está dentro de você também, portanto, é com ele que você deve se entender primeiro antes de consertar o mundo. Somos esse aí mesmo, com todos os medos, angústias, valores que herdamos desde nossos tataravôs.

Agora, voltando à moda do politicamente correto. Ele é ótimo. Alguém precisa criar alguma coisa para que a sociedade se respeite mais, odeie menos, se mate menos. O problema é que daqui a uns dias algum promotor pode querer processar um professor por ter reprovado uma criança.

E nas empresas; caso você for trabalhar numa que não vise lucro, que só pense no bem-estar do funcionário e do cliente, que pense só no social, que te chama de colaborador porque é bonito, peça as contas, ou logo ela não terá dinheiro para honrar seu salário. Simples assim.

Hoje pode ser chique alguém amaldiçoar a riqueza, o capital centralizado – o dinheiro na mão de poucos – também não gosto. Queria um mundo mais igualitário. Todavia, é graças a essa riqueza, a essa sociedade de mercado, que você tem médicos que sabem muito, aparelhos que resolvem uma série de problemas na sua vida e na de sua família.

Graças a esse modelo que você tem carros e aviões que o levam para muito longe no maior conforto; tem start fones para falar com o mundo, mandar vídeos ao filho distante e matar tempo fofocando nas redes. Você pode até defender os mais pobres, os índios, as crianças da África usando seu celular, por exemplo.

Só não esqueça que enquanto você usa essa tecnologia, muitíssimas pessoas são praticamente escravizadas para fabricar esse mesmo aparelho a custos mais baixos. Sim, esse mesmo que está em suas mãos agora enquanto você lê este texto e pensa que os corretos são você, seus parentes, amigos…  

*Jornalista e professor. Licenciado em Letras, doutor em Educação pela UFSM.

1 COMENTÁRIO

  1. Texto maravilhoso, reflexivo!
    Parabéns por nos fazer pensar no nosso cotidiano turbulento. 👏👏

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