Nunca fui santo. Cansei de aprontar as minhas em casa, na escola, caso não estivesse capinando algum pátio para me rebuscar dos pilas, pois a preguiça nunca teve lugar neste corpo, requisito que talvez me fizesse merecedor de um bom presente de Natal.
Foi numa das casas, cujo pátio eu limpava, que observei uma relíquia de duas rodas. Embora eu estivesse com 12 anos, ainda não tinha uma bicicleta e imaginei que ela poderia ser minha, apesar de parecer estar ali há séculos. Fiz planos. Até me imaginei pedalando…
Pensei em propor uma compra à dona da bicicleta. “Quem sabe a senhora não me entregaria ela como pagamento do serviço?” Mas, e se o preço for alto? Teria que trabalhar em dobro, limpando seu pátio muitas vezes.
Pera aí! E se for relíquia de família? Jamais ela iria se desfazer. Bom. Seja o que Deus quiser! Munido de coragem, cheguei à dona da casa e falei na bicicleta, se poderia comprá-la. Sem dizer água nem sal, ela se afastou. Dei com os burros n’água. O jeito é pensar noutro “Natal”.
Finalizei o serviço e fui ter com a patroa. – Quanto te devo?”, perguntou ela. – Conforme o acertado, 30 cruzeiros – respondi. Então, ela abriu a gaveta e tirou dez, cinco, cinco, cinco, um, um… Gelei. Se vai me pagar, é porque não vai me vender a bicicleta. Mas logo me conformei. Haveria de guardar dinheiro e comprar outra bicicleta. Aquela era muito antiga mesmo! – Está certo?, indagou. – Sim…, – respondi, tristonho. – Ah, tu queria a bicicleta, não é? Passa lá e pega…
O que eu queria comprar, acabei ganhando. Foi de um estranho que veio meu grande presente de Natal. Juro que não esperava. Aquilo me marcou muito. Depois, cheguei na vila de veículo novo. E nem vou contar quantos novos amigos eu ganhei…




