(João Lemes) Antes era simples. Natal tinha que ter peru. Não importava se era velho, duro, seco que nem sola de bota. Era peru e pronto. Todo mundo sabia. O peru podia até perder pro galo mais velho do terreiro em termos de sabor, mas tradição é tradição. Tinha que ser peru e deu.
Depois, inventaram o chester. Até hoje nunca vi um chester andando pelo terreiro. Nunca cacarejou, nunca dormiu no poleiro, nunca correu do cachorro. Dizem que é frango de peito duplo. Pra mim, um peito só já resolvia, desde que fosse macio e tivesse gosto de comida.
Mas agora eles se superaram. Agora é “ave natalina”. Tu chega no mercado e pede: me vê uma ave natalina. Mas é o quê? Peru, frango, galinha, chester, pombo de luxo? Não interessa. É ave natalina. Os tempos modernos fizeram isso: antes o bicho tinha nome, história e até superstição. Agora virou tudo ave.
Ano-novo já mudava o bicho: entrava o porco, porque porco fuça pra frente e, até onde eu sei, continua fuçando. Nunca vi porco dar marcha à ré. E tinha mais superstição no pacote: galinha nem pensar na virada, porque cisca pra trás. Também nunca vi galinha ciscar pra frente, mas o povo respeitava. Era assim e ninguém discutia.
Junto com o porco (de maçã na boca) vinha a lentilha, aquela mesma que hoje o pessoal come o ano inteiro, gourmetizada, cheia de estudo científico. Antigamente, não. Lentilha era só na virada, quase um ritual. O pobre juntava troquinho o ano todo pra fazer uma farta, nem que fosse uma vez. Era pra comer bem e, de quebra, aguentar o cunhado chato que vinha de longe só pra incomodar e repetir o prato.
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