Estado – RS – Mudanças prometem baratear a habilitação, mas já provocam fechamento de unidades, cortes de pessoal e levantam dúvidas sobre a formação de motoristas e a segurança no trânsito
As novas regras da Carteira Nacional de Habilitação entraram no debate público com a promessa de reduzir custos e simplificar o processo. Para quem quer dirigir, a notícia soa positiva. Para os Centros de Formação de Condutores, o cenário é de alerta. No RS, mais de 2 mil trabalhadores já perderam o emprego antes mesmo da aplicação completa das mudanças. O setor fala em ruptura do modelo, risco social e um futuro incerto para a educação no trânsito.
O que mudou nas regras da CNH?
O governo federal flexibilizou quase todo o processo de formação. Aulas em CFCs deixaram de ser obrigatórias, o curso teórico passou a ser digital e gratuito, e a carga mínima de aulas práticas caiu de 20 para apenas 2 horas. Exames médico, psicológico e prova prática seguem obrigatórios.
Por que os CFCs estão preocupados?
Porque o novo modelo tira do centro do processo a formação estruturada e coloca o foco quase exclusivo no exame final. Para o setor, isso desmonta uma cultura de educação para o trânsito construída desde 1998.
Quantos empregos já foram perdidos no RS?
Segundo o SindiCFC-RS, mais de 2 mil profissionais foram desligados nos últimos meses. O Estado tinha cerca de 9.961 trabalhadores no setor, número que já caiu de forma expressiva.
Quantos CFCs existem hoje no Estado?
O RS conta com 263 CFCs. Apenas em Porto Alegre são 35 unidades. Relatos de fechamento e férias coletivas já surgem no Interior.
Por que o impacto pode ser maior no RS do que em outros Estados?
Porque o modelo gaúcho é mais rígido e organizado, com regras claras, aulas tabeladas e concessões estaduais. Justamente por isso, a quebra do sistema tende a ser mais sentida aqui.
O argumento do governo é só reduzir o custo?
Sim. A estimativa oficial é de até 80% de redução no valor da CNH, que hoje pode chegar a 5 mil. O setor reconhece o problema do preço, mas diz que a discussão ignora o valor da formação.
Qual é o risco apontado pelos instrutores?
A formação informal. Pessoas sem preparo podem ensinar outras pessoas, perpetuando vícios de condução. Para os profissionais, isso tende a refletir em mais conflitos, infrações e mortes no trânsito.
Os índices de aprovação já são baixos hoje?
Sim. No RS, a aprovação média no exame prático gira em torno de 35%, mesmo com 20 horas de aula obrigatória. Em alguns CFCs, o índice fica perto de 20%.
Duas horas de aula prática são suficientes?
Para o setor, não. Diretores e instrutores afirmam que a maioria dos alunos precisa de 28 a 30 aulas para chegar preparada. Com apenas duas, não haveria processo pedagógico real.
E no caso das motos?
A preocupação é ainda maior. Aulas exigem pista específica, estrutura coberta e instrutor dedicado. Sem alunos, manter essa estrutura se torna inviável.
O que dizem os instrutores sobre segurança?
Que aprender dentro de um CFC é mais seguro para o aluno e para a cidade. Veículos com duplo comando e ambiente controlado reduzem riscos no aprendizado.
Os CFCs têm alternativa?
Alguns tentam se reinventar, criando novos formatos de aula. Outros admitem que podem não sobreviver. Há unidades que estimam fechar em menos de seis meses.
O impacto vai além do setor?
Sim. Em cidades pequenas, o fechamento de um CFC obriga candidatos a se deslocarem para outros municípios, encarecendo e dificultando o acesso à habilitação.
O que diz o DetranRS?
O órgão confirmou que as novas regras passam a valer a partir de 5 de janeiro, com um modelo híbrido e sem período formal de transição. Parte do processo seguirá temporariamente no formato antigo.
Instrutores autônomos e veículos próprios já estão valendo no RS?
Não. Essas possibilidades dependem de regulamentação do Contran e da Senatran. Enquanto isso, seguem proibidas no Estado.
Qual é a principal crítica do setor?
Que o debate ficou restrito ao preço da CNH. Para os CFCs, o problema central não é econômico, mas pedagógico e de segurança viária.
Em resumo, o que está em jogo?
De um lado, a promessa de habilitação mais barata. Do outro, milhares de empregos, a sobrevivência dos CFCs e a qualidade da formação dos futuros motoristas. O efeito completo das mudanças ainda é incerto, mas os impactos já começaram.
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