(Baseado em artigo do Estadão) O autoritarismo não assusta uma parte dos eleitores porque, para esse grupo, ele não aparece com esse nome. Aparece como firmeza, combate ao crime, enfrentamento aos tribunais, reação contra a política tradicional e disposição para fazer o que os outros não fazem. Quando a democracia passa a ser vista apenas como demora, acordo e impunidade, quem promete mandar, punir e romper regras pode parecer solução.
Há também o medo do adversário. Para muitos, o risco representado pelo PT ou pela esquerda pesa mais do que qualquer preocupação com excessos de poder. Nessa lógica, vale apoiar quem se coloca como oposição radical, mesmo que isso enfraqueça instituições, a imprensa, os controles e o diálogo. O autoritarismo deixa de ser um problema e passa a ser visto como um mal menor.
Outro fator é a confiança de que sempre haverá eleição depois. Muita gente acredita que, se um governo ultrapassar os limites, bastará trocar o presidente quatro anos mais tarde. Mas essa possibilidade não existe por milagre. Ela depende de instituições fortes, respeito às regras, liberdade de imprensa e reconhecimento de que o adversário também tem direito de disputar, vencer e governar.
A democracia parece abstrata para quem está preocupado com comida cara, violência, dívidas e falta de oportunidade. Só que ela deixa de ser abstrata quando o poder passa a calar críticas, perseguir adversários e decidir que só um lado pode representar o país. É nesse momento que o eleitor percebe, tarde demais, que a liberdade que parecia garantida precisava ser defendida todos os dias. (Redação, João Lemes. Fonte: Estadão)
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