Santiago – ANO 2.000 – (João Lemes) – Seguindo nosso documentário, volto ao início de 2000, quando o combate às drogas já rendia preocupação e polêmica nas páginas do Expresso. E o advogado Eudócio Pozo, então vereador, entrou nessa discussão com um exagero medonho. Pelas quantidades que anunciou, o Carnaval da região exigia mais do que disposição para quatro dias de folia. Exigia capacidade pulmonar e nasal fora do comum.

A conta do Carnaval
Na Câmara, Pozo afirmou que uma tonelada de cocaína teria sido consumida durante o Carnaval de São Borja. Também falou em 250 quilos de maconha por dia em Santiago. Faço a conta: em quatro dias, outra tonelada (maconha e/ou cocaína). Tudo isso segundo o vereador, que classificava a situação como alarmante. Eu diria que os números também eram. Se era assim só no Carnaval, imagina depois.
A fonte era o Fumo
E de onde vinham as informações citadas por Pozo? Ele mencionava um ex-traficante conhecido como Fumo, que teria contado sobre o tráfico na região. Pois vejam: o assunto era droga, a fonte era o Fumo e a denúncia saía às toneladas. O apelido já parecia escolhido para esse capítulo.
A Cheirolândia
Pozo também dizia que Santiago era uma porta de entrada para as drogas e chamou cada santiaguense de “cheirador potencial”. Nessa conta, bastava morar aqui para entrar na suspeita. Sugeriu até o nome de “Cheirolândia” para a cidade. Nem o Polsério Fagundes, personagem do cartunista Santiago, escapou de aparecer no meio da polêmica. Eu fico imaginando o cidadão abrindo o jornal e descobrindo que já estava incluído na estatística sem nunca ter sido consultado.
A Festa do Fumo
O vereador ainda falou num “cheiródromo” na praça principal, com direito ao nome de “Festa do Fumo”. Era uma provocação, claro. Mas reparem até onde a denúncia tinha ido: começou no combate ao tráfico e já estava escolhendo nome para festa e lugar na praça. Até a inauguração da ponte sobre o rio Itu, entre Santiago e São Francisco de Assis, entrou na conversa. Pozo relacionou a obra com possíveis caminhos para a circulação de drogas. Nem a ponte escapou.
Os dois narizes
A resposta mais engraçada veio do delegado Nilson, da Polícia Federal de São Borja. Ao contestar a quantidade anunciada, ele disse: “Nem se a população de Santiago, de 60 mil habitantes, tivesse dois narizes conseguiria cheirar toda esta cocaína durante o período de Carnaval.” Eu poderia tentar melhorar a ironia, mas seria desperdício. O delegado já tinha resolvido a questão pelo nariz.
A explicação que ficou faltando
São Borja convocou Pozo para explicar as declarações. Ele não foi. Depois de tanta tonelada, tanto “cheirador potencial” e até uma festa batizada, faltou justamente o autor para explicar a conta. E é assim que recupero essa passagem do nosso arquivo: o problema das drogas era sério, mas aqueles números eram alegações, sem comprovação no material. O exagero, esse ficou bem documentado. Hoje, não sei se já não andamos beirando alguma tonelada. A diferença é que hoje, ninguém mais leva o tema tão a sério quanto nosso Eudócio Pozo.

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