EXPRESSO 33 ANOS –Quando Chicão anunciou que seria candidato e (quase) rachou o PP

“Sou PP de coração, mas não voto em Chicão”

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Santiago -RS – (João Lemes) Seguindo nessa história da eleição de 2000, lembro que o Chicão ainda era novo na política. Muito antes da prefeitura, José Francisco Gorski já se destacava no esporte, no Cruzeiro. Depois, concorreu a vice-prefeito de Toninho Gomes pelo PPB, o atual Progressistas. Até que chegou o momento em que o titular poderia disputar a reeleição, mas o vice resolveu que também queria ser prefeito.

Lembro como se fosse hoje. Chicão foi à minha casa, pediu uma conversa e quis saber: se me passasse uma informação, eu colocaria num rodapé ou daria destaque?

— Olha, vindo de ti, tu vindo à minha casa, é porque é algo importante. Eu te prometo a cobertura que o fato merece. Mas me diga: o que tu traz aqui?

E ele foi direto:

— É o seguinte: eu resolvi que vou concorrer a prefeito.

Pois naquela semana saiu a manchete do Expresso anunciando que a dupla Toninho e Chicão estava desfeita. A notícia provocou uma ameaça de racha no partido. Chicão ficou sem departamento na prefeitura e foi para casa, embora continuasse vice-prefeito. As más línguas diziam que tinha sido escorraçado pelo titular. Registro aqui o que se comentava naquele tempo, com todo o respeito à memória dos dois, que já partiram.

Na charge do jornal, Toninho poderia deixar o partido e ir para o MDB do Dr Accácio.

“Sou PP de coração, mas não voto em Chicão”

A disputa interna chegou aos adesivos de carro. Lembro de um que dizia, mais ou menos assim: “Sou PP de coração, mas não voto em Chicão”. Também houve quem explorasse a possibilidade de Toninho deixar o partido e apoiar o médico Acácio de Oliveira, do então PMDB.

Toninho não saiu. Chicão concorreu, venceu e, mais adiante, os dois voltaram às boas. E nessa história não podemos esquecer o grande líder Valdir Amaral Pinto. Na hora do pega, ele chamou todo mundo, acalmou os ânimos e ajudou no acerto.

O PP sempre teve essa característica: ranços e problemas internos, como em todo grande partido, mas, na hora de enfrentar o adversário, a turma se juntava. Na minha lembrança, essa capacidade de recomposição ajuda a explicar a longa hegemonia progressista em Santiago.

Mas ainda tem a história do celular

Quando Chicão foi para casa, ficou exercendo o mandato de vice dali mesmo, ao lado do antigo posto Texaco, hoje Shell. Levou um celular disponibilizado pela prefeitura. Naquele tempo, celular era artigo de luxo. Hoje ninguém vive sem, mas naquela época custava caro e chamava atenção.

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Accácio, atiçado pelo vereador Nelson Abreu (Nequinho), explorava isso na campanha. A cobrança era que Chicão tinha ido para casa, continuava recebendo e ainda usava o telefone da prefeitura.

Num debate, de tanto ouvir a crítica, Chicão se estourou. Pelo que guardo daquela discussão, respondeu mais ou menos nestes termos:

— Sim, levei o celular porque continuei trabalhando. A atribuição do vice é assumir quando o titular falta. E, há poucos dias, passei a madrugada inteira atendendo as pessoas por causa do granizo.

Ele se referia a uma das maiores chuvas de granizo que lembro de ter atingido Santiago. Passou a noite distribuindo lona preta e ajudando quem precisava. Era essa a resposta dele à acusação de que tinha parado de trabalhar.

Quem conheceu o Chicão sabe o quanto ele ajudava. Foi prefeito, foi deputado e morr3u num acidente de trânsito. Na lembrança que tenho dele, partiu pobre, porque estava sempre repartindo e ajudando todo mundo.

É mais um pedaço da história política que acompanhei e que ficou nas páginas do Expresso. A eleição de 2000 levou Chicão à prefeitura pela primeira vez. Entre a visita à minha casa, a manchete, o quase racha e o debate sobre o celular, havia uma história que os números das urnas, sozinhos, não contam. (Não perca as demais histórias)

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