Santiago – RS – (Região Central) – Flores, agradecimentos e pedidos de ajuda fazem parte das visitas a um dos túmulos mais conhecidos do Cemitério Municipal. Para alguns visitantes, o homem lembrado como “Russo” teria o poder de realizar milagres. Mas quem foi ele? O santiaguense Fábio Monteiro, historiador, apresenta uma narrativa sobre o episódio que aproximou violência, memória e devoção popular.
O crime que marcou a comunidade
Segundo Monteiro, a história começou no início dos anos 1930, com o assassinato do estanceiro Domingos Terra e de seu filho Nelsinho. Os dois viajavam de Santiago para Tupanciretã quando foram atacados. O carro foi roubado, e os envolvidos seguiram pela estrada que existia naquele período.
O historiador explica que o traçado era diferente do atual. Restos de uma ponte antiga, em meio à vegetação, ajudam a localizar o caminho percorrido naquela época.
A cruz que guarda a lembrança
No ponto apresentado por Monteiro, uma cruz recorda o assassinato de pai e filho. Ele esclarece que não há corpos sepultados lá. O marco foi colocado pela família Terra como homenagem às vítimas e lembrança do crime.
A perseguição aos envolvidos
A notícia mobilizou policiais, lideranças e peões das fazendas. Conforme a narrativa, Domingos Terra era um estanceiro influente e muito estimado na comunidade. Sem conhecer bem os caminhos, os fugitivos seguiram em direção à antiga Vila Flores, hoje conhecida como Florida.
Um dos envolvidos foi capturado e levado à cadeia. Giuseppe Minardi, chamado de “Russo”, teria permanecido escondido por mais tempo. Monteiro reproduz a lembrança de antigos moradores de que ele dormia durante o dia e caminhava à noite para escapar das buscas.
A captura e a violência
Segundo o historiador, Minardi foi encontrado e m0rto sem oferecer grande resistência. Na narrativa, ele é apresentado como um dos envolvidos no assassinato do estanceiro e do filho.
Monteiro também menciona registros do processo e histórias sobre torturas sofridas pelo primeiro preso. São episódios que, em sua reconstituição, mostram a violência que acompanhou a perseguição e a captura.
O corpo diante da cadeia
Após a mort3, o corpo do “Russo” foi levado para a antiga cadeia de Santiago. Conforme Monteiro, ficou exposto junto à passagem de entrada do prédio, onde havia uma valeta atravessada por uma ponte improvisada.
O historiador conta que o cadáver sofreu insultos e agressões. Depois, foi colocado em um carrinho de mão e levado ao Cemitério Municipal. Segundo a narrativa, as autoridades da época determinaram que ele não recebesse caixão nem funeral.
A passagem da história para a crença
Décadas depois, o túmulo passou a receber visitantes que atribuem graças ao “Russo”. Há quem leve flores, faça pedidos ou retorne para agradecer.
Essa devoção popular não comprova a realização de milagres nem permite afirmar que ele era um santo. Mostra, porém, como uma história cercada de violência ganhou outros sentidos na memória da comunidade. Entre os acontecimentos narrados e a fé dos visitantes, permanece uma pergunta: como o homem associado a um crime se tornou uma figura de devoção? (Redação, João Lemes. Fonte: narrativa do historiador Fábio Monteiro)
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