

Caso Thammy Miranda: jornalista Thamires Tancredi desabafa
(por Thamires Tancredi – Zero Hora)
Nos últimos tempos, uma frase tem sido recorrente nos meus grupos de Whats: “Gurias, não tenho mais estômago para isso”. Serve para os últimos mandos e desmandos da política, para a situação da economia, pros números da pandemia que não param de subir. Para as bobagens que a gente acaba lendo sem querer no Facebook ou aquela conversa sem pé nem cabeça que os ouvidos captam no supermercado.
Mas, nesta manhã, o nó no estômago surgiu depois daquela passeada sem pretensão pela timeline do Twitter. Por lá, uma galera que usa a liberdade de expressão como desculpa para destilar preconceito escolheu um novo alvo: Thammy Miranda. O motivo? Pai de um menino de seis meses, Thammy foi um dos influenciadores escolhidos pela Natura para os comerciais de Dia dos Pais. Desde que a campanha virou notícia, multiplicam-se comentários questionando a escolha.
Me recuso a reproduzir os xingamentos, mas não é difícil entender que o caráter transfóbico das acusações predomina. Na cabecinha dessas pessoas, é uma ofensa ao “pai de família tradicional” que um homem trans esteja em um posição de destaque. Que ele receba uma homenagem. Que ele seja citado como uma referência paterna.
Sobrou, claro, até para a Natura. A hashtag #BoicoteNatura foi apenas uma das que esteve entre os assuntos mais comentados. “Um ataque aos valores das famílias brasileiras”, sentenciou uma senhora.
Até o senador Eduardo Bolsonaro apareceu para dar o seu pitaco. “Mulher como garoto propaganda do dia dos pais. Depois Homem para o dia das mães… E quem falar o contrário já sabe né? É gado, é pessoa raivosa, discurso do ódio e fake news. Assim vão te calando e empurrando goela abaixo uma conduta totalmente atípica para padrões brasileiros”, escreveu (sic) o parlamentar.
Segundo o IBGE, mais de 11,6 milhões de mulheres encaram a maternidade de forma solo no país. A maioria não por opção, mas porque os pais desapareceram. Cadê? E nem pensão deixou. Há outros tantos que só estão no “cargo” por diversão, ao que parece: para jogar futebol com o filho no final de semana, mas sem levantar um garfo para assumir os cuidados com a criança no dia a dia. “Fazer comida e cuidar da educação é coisa de mulher, né?”, pensam tantos.
Sim, há exemplos maravilhosos de pais que fazem tudo por seus filhos (o meu é um!), ainda bem. Mas, e o que você diria para os tantos filhos de pais ausentes por aí? (Extraído de Zero Hora)



