Kiss, o beijo da morte

Publicado em

(Arlete Gudolle Lopes;
escritora santiaguense)
Mal os tamborins começaram a vibrar, o som deles ecoou em nossas lembranças não como o alardeador das festas momescas, mas como a terrível constatação de que 242 jovens lindos não dançaram na noite de 27 de janeiro de 2013. O ritual que foi coreografado por pais, familiares, amigos, todos os gaúchos e muitos brasileiros que tiveram parentes ou amigos mortos na fatídica madrugada de um domingo na Boate Kiss de Santa Maria, foi o de luto e de dor. Não houve razão para sambarmos porque as lágrimas esmaeceram a cor da folia. 
Os passos titubeantes ou apressados dos que choraram pelos seres amados seguiam para o palco que ninguém queria sambar: as lápides herméticas de algum cemitério. A dor não devastou a alma e a vontade de festejar apenas daqueles que eram próximos dos garotos e das garotas, roubados dos seus pelo negror tétrico da fumaça assassina. A dor se acomodou em todos os outros pais, amigos, parentes ou pessoas emotivas como eu e vocês, que nos cobrimos de luto também, solidários com a dor deles.
Em nossa vida, no ano de 2013, não houve carnaval porque foi preciso exigir responsabilidades para que se sentenciem punições a quem deve ser punido. Envolvemo-nos com o negro luto da indignação. Botamos o bloco na rua. Portamos os nossos estandartes. Acorrentamos o coração com a esperança de que tragédia similar jamais volte a acontecer. 
Elevamos as nossas vozes, cantando o samba do Grito por Justiça para que outras madrugadas não nos roubem a euforia de outros carnavais.  Neste terceiro ano de espera por justiça, vistamos a fantasia da dor e sejamos os arautos anunciadores da esperanç

a de que as vidas que foram, prematuramente, ceifadas não nos deixem esquecer as sequências de omissões e irresponsabilidades que resultaram nessa tragédia.

O luto de que todos nós somos envoltos levará muito tempo para nos fazer menos tristes. A lembrança dos que morreram torna mais intensa a nossa indignação de que a excessiva preocupação em tapear, fazer vistas grossas, usar materiais mais baratos e inadequados para assegurar os lucros e a certeza de que alguma autoridade se corrompeu ao fingir não perceber o irregular, tornam ainda mais estarrecedor tudo o que aconteceu. Que a lembrança disso nos desacomode e passemos a exigir a criação de leis mais rigorosas para a punição do crime.
Sim! O que houve na Boate Kiss de Santa Maria não foi uma tragédia. Foi um crime previsível porque o cenário estava, previamente, preparado para a consumação. O Kiss foi para todos aqueles moços e moças o implacável beijo da morte.
O tempo, esse senhor insaciável de vidas, com suas pernas céleres e passos bem largos, se detém o poder de acelerar as tragédias, pode, também, amenizar, com sua passagem, a dor, tingida pelo carinho de amigos e de muitos anônimos solidários com tanto sofrimento. De muito tempo precisaremos para voltar a sambar em outros carnavais, no entanto, não olvidemos a festa que não houve em 2013 para 242 jovens. Resguardados nessa lembrança, em cada 27 de janeiro de qualquer ano, acendamos as velas da memória para que tragédias dessa magnitude jamais voltem a acontecer.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

184.758

132,618FãsCurtir
73,451SeguidoresSeguir

Notícias Recentes

Coronel e empresário são presos por desvio de 11 milhões no Exército

O esquema funcionava com fraude em licitações e documentos falsificados no Rio Rio de...

O maior golpe da história termina sem punição em São Chico

São Francisco de Assis - RS - (Região de Santiago) Um dos maiores golpes...

Para ele, um prazer criminoso; para a mãe da menina, um negócio terrível

A mãe era quem "vendia" a menina. Ele pagava entre 500 e mil para...

Temer diz não se arrepender de nomear Moraes

Brasília, DF - Michel Temer afirmou que fez a escolha certa ao indicar Alexandre...

Leia Também

Coronel e empresário são presos por desvio de 11 milhões no Exército

O esquema funcionava com fraude em licitações e documentos falsificados no Rio Rio de...

O maior golpe da história termina sem punição em São Chico

São Francisco de Assis - RS - (Região de Santiago) Um dos maiores golpes...

Para ele, um prazer criminoso; para a mãe da menina, um negócio terrível

A mãe era quem "vendia" a menina. Ele pagava entre 500 e mil para...