8 frustrações que toda criança pode ter e você nem imagina

Ver seus desejos negados traz decepção, choro e até raiva, mas se deparar com os limites faz parte da infância e colabora para o desenvolvimento dos pequenos.

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Oferecer à criança uma infância saudável e afetuosa não significa dar tudo que ela deseja nem dizer sim a todas as suas vontades. É importante lembrar que os pequenos são seres em formação, que precisam da experiência e dos conhecimentos dos adultos como balizas de comportamento – e é aí onde entram os limites. Nesse processo, a frustração se torna não apenas natural, mas parte do desenvolvimento infantil.

“As crianças não nascem sabendo das coisas e ensiná-las é função dos adultos que estão ao seu redor. O cérebro dos pequenos é mais emocional do que racional e a parte do córtex pré-frontal, que é responsável pelas funções executivas, termina de se desenvolver apenas no início da idade adulta. Por isso, é preciso ensiná-las diariamente para que desenvolvam essas funções”, explica a neuropsicóloga e psicopedagoga Luciana Garcia de Lima, que comenta, a seguir, alguns limites práticos necessários à infância.

Ter o uso de telas controlado

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, bebês com menos de 2 anos não devem ser expostos a telas. Dos 2 aos 5, é importante que essa exposição seja de, no máximo, uma hora por dia. Como se sabe, porém, apesar das orientações da OMS e de outras entidades, como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o uso de aparelhos como tablets, celulares e a tradicional televisão acaba funcionando, muitas vezes, como um recurso de famílias com pouca ou nenhuma rede de apoio.

Ainda assim, é essencial ter um olhar cuidadoso em relação à prática e dar limites claros e consistentes. “Nessa época da vida, o cérebro está em pleno desenvolvimento e precisa de experiências diversificadas para criar conexões neurais. As mãos da criança são o principal instrumento para a formação dessas conexões, então ela precisa tocar diferentes texturas, pegar nas plantas, na terra, na tinta, na areia, entre tantas outras coisas”, exemplifica Luciana. Vale estabelecer, portanto, um momento do dia ou da semana para que o pequeno tenha acesso às telas – de acordo com a idade e, é claro, tendo todo o controle possível em relação ao que é acessado e consumido.

Respeitar o horário de dormir – e os outros que compõem a rotina

Conforme a criança cresce, ficar acordada até tarde pode parecer divertido e tentador, mas é importante que a família mantenha um horário para que ela comece a rotina do sono e, dessa forma, a ida para a cama não se torne um problema. “A criança precisa de rotina e de previsibilidade para se desenvolver”, alerta a especialista, e isso precisa ser promovido por seus pais ou cuidadores. “Estabelecer rituais para a hora de dormir ajuda a preparar o terreno para o sono. Por exemplo, cerca de uma hora antes a casa deve ficar silenciosa, com luzes mais fracas, sem nenhum eletrônico ligado. Assim, a melatonina, que é o hormônio do sono, já começa a atuar. Dar um banho quentinho e ler uma historinha podem fazer parte desse ritual”, acrescenta Luciana, que lembra ainda que o sono é preditor de uma boa saúde física e mental.

O mesmo pode ser estendido para toda a rotina diária da família – os horários não precisam ser militares, é lógico, mas ter um ordem pré-estabelecida traz mais tranquilidade ao dia a dia.

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Fazer as refeições de forma adequada, ainda que o desejo seja outro

Comer no sofá ou eliminar todos os verdinhos do prato pode até ser a vontade do seu filho, mas insistir nas refeições à mesa, com um cardápio saudável e variado, é fundamental para compor uma boa qualidade de vida – para os adultos e, principalmente, para as crianças, que ainda estão em fase de desenvolvimento. “Além da diversidade de alimentos no prato, os hábitos à mesa são muito importantes”, ressalta a neuropsicóloga. “Quando a criança come na frente da televisão ou de outros aparelhos eletrônicos, ela não presta atenção no que está ingerindo. Isso prejudica seus hábitos alimentares e sua relação com a comida”, afirma.

Além disso, se ao menos uma refeição do dia puder ser feita em família, com todos juntos, o momento passa a ser de troca, de diálogo e até de incentivo para que os pequenos se alimentem melhor.

Precisar cumprir seus compromissos, embora às vezes não queira

Sabe quando seu filho diz que não quer ir para a escola ou “providencia” uma indisposição ou uma série de desculpas para faltar na natação? É importante saber se há algo por trás dessa vontade de faltar (como problemas com amiguinhos ou professores, por exemplo), mas é essencial que os pequenos aprendam a importância de cumprir seus compromissos desde a infância. “Isso ajuda a criança a desenvolver a responsabilidade de que ela tanto necessitará na vida adulta, além de ensinar a enfrentar obstáculos e a se fortalecer com isso”, diz Luciana. Portanto, não ceder a dias de preguiça faz parte das frustrações importantes com as quais as crianças precisam lidar durante a infância.

Fazer atividades de higiene, cuidado pessoal e da casa

Pular o banho, comer sem lavar as mãos ou dormir sem escovar os dentes é tentador quando se tem 7 anos e as brincadeiras são muito mais interessantes do que qualquer hábito de higiene. Mas parar as atividades divertidas para ter um momento de cuidado, por mais chata que a tarefa seja durante a infância, é um ensinamento importante para os pequenos. “As crianças precisam aprender a se amar. Os cuidados pessoais, a responsabilidade consigo mesma e com o próprio corpo ensinam isso”, destaca Luciana.

Da mesma forma, cuidar do espaço privado e coletivo (como o quarto e a sala de casa) também precisa ser um ensinamento passado pelos adultos – sendo o exemplo uma ótima maneira. Arrumar a cama ao acordar, guardar os livrinhos e recolher os brinquedos espalhados pelo tapete são práticas simples e que podem ir evoluindo conforme a criança cresce. É importante aprender desde cedo que, embora não sejam prazerosas para a maioria das pessoas, são as tarefas domésticas que proporcionam uma casa limpa e confortável, e que elas devem ser partilhadas por todos.

Entender as consequências de não cumprir os combinados

“Como sabemos, é função dos adultos ensinar responsabilidade e respeito para as crianças, e uma das formas de desenvolver isso é mostrar que tudo tem uma consequência e que, nem sempre, é a que nós gostaríamos”, pondera a psicopedagoga. Segundo ela, aprender a assumir as responsabilidades pelos nossos atos é fundamental e, para isso, os combinados são excelentes durante a infância. “Nós só precisamos ficar atentos para que esse combinado não se torne uma chantagem”, alerta.

Além disso, ela ressalta a importância da constância por parte de pais ou cuidadores. “Ao deixarmos ou não a criança fazer algo, precisamos ter um bom motivo, que deve ser plausível, visando à segurança e ao bem-estar dela, nunca baseado no nosso humor ou estado de espírito”, acrescenta.

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Aprender que há limites para as escolhas

Deixar que o pequeno tome algumas decisões faz parte do desenvolvimento dele, contribuindo para sua autonomia e autoconfiança, mas não se pode esperar coerência e conhecimento de mundo de um serzinho que ainda tão pouco viveu. Quem, afinal, do alto dos seus 6 anos, não adoraria comer a sobremesa antes do almoço? “A opinião da criança deve ser sempre considerada, mas não precisa ser aceita o tempo todo. Em alguns momentos, nós podemos considerar, mas explicar o porquê da sua vontade não poder ser realizada naquele momento”, diz Luciana.

Uma sugestão que ela dá é a de oferecer ao pequeno uma “pseudoescolha”, ou seja, com opções limitadas. “Por exemplo: ‘eu sei que você adoraria usar a regata rosa para ir à casa da vovó, mas está frio. Então você pode escolher entre o casaco lilás ou o suéter amarelo. Qual deles você prefere?’”, ilustra.

Saber que não se pode ter todos os itens de desejo

Entrar em uma loja de brinquedos para comprar um presente pode ser desafiador quando os filhos estão juntos. “Compra para mim?”. “Quero tanto esse”. “A sala toda tem, menos eu”. São falas clássicas de qualquer ida ao shopping com criança, mas, como destaca a profissional, é importante tomar cuidado com a resposta a esses desejos. “Quando lhe damos tudo que ela quer só porque está insistindo, esperneando ou chorando. Estamos, na verdade, ensinando à criança que a forma de conquistar as coisas na vida é essa”, alerta.

Para Luciana, essa questão ainda traz outra consequência preocupante, que é o consumismo excessivo. “Isso está trazendo enormes prejuízos para o desenvolvimento das crianças, pois elas estão atrelando coisas materiais ao seu valor pessoal. Estão aprendendo a ter e não a ser”, finaliza. Pensando nisso, vale prestar atenção nos hábitos de consumo de toda a família. E quando se deparar com aqueles relacionados diretamente aos pequenos, lembrar que os “nãos” fazem parte do aprendizado infantil.
F.: Crescer/comportamento

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