Estado – RS – (por João Lemes) O deputado Beto Fantinel, MDB, levantou um tema que pouca gente gosta de encarar, mas que está diante dos nossos olhos. O Brasil está adoecendo não apenas pela política, mas pelo que a política está fazendo com as relações humanas. A divisão ideológica saiu das redes sociais, entrou nas casas, atravessou cercas, separou famílias e transformou vizinhos em adversários.
A política ocupou o lugar da convivência
“Durante décadas, as comunidades do interior foram construídas na base da ajuda mútua. Quando alguém adoecia, os vizinhos apareciam. Quando uma família passava necessidade, organizavam-se rifas, jantas e campanhas. Não se perguntava em quem a pessoa votava. Perguntava-se apenas do que precisava”, disse o deputado.
“Hoje, em muitos lugares, o cenário é outro. O cidadão sabe tudo sobre a última briga entre Lula e Bolsonaro, mas não sabe que o vizinho está internado. Conhece os debates das redes sociais, mas não conhece mais os problemas da própria rua. A política tomou um espaço que antes era ocupado pela convivência”.
A morte da solidariedade
Talvez a frase mais forte dita por Fantinel seja a mais simples. Antigamente, quando alguém adoecia, matava-se o galo mais gordo e levava-se um caldo para a família. Hoje, segundo ele, uma pessoa morre e ninguém fica sabendo se a funerária não publicar no Facebook.
É uma imagem dura. E justamente por isso tão verdadeira
A tecnologia aproximou quem está longe, mas afastou quem mora ao lado. Muitos sabem o que acontece em Brasília, Washington ou Moscou. Mas não sabem o nome do novo morador da casa vizinha.
A comunidade perdeu a chave
Outra observação feita pelo deputado revela um problema ainda maior. Existem comunidades onde ninguém mais quer assumir a presidência do salão comunitário. Há lugares em que surgem três grupos diferentes disputando poder local, mas ninguém disposto a unir as pessoas.
O resultado é visível. Festas desaparecem. Reuniões diminuem. Clubes envelhecem. Centros comunitários fecham as portas. O que antes era encontro virou disputa. Quando a comunidade perde a capacidade de se reunir, perde também a capacidade de resolver seus próprios problemas.
Nem Lula nem Bolsonaro vão aparecer
Talvez o trecho mais realista do discurso seja aquele que fala do dia em que alguém tropeça numa escada e quebra a perna. Nesse momento, não existe telefone direto para o presidente Lula nem para Bolsonaro. Quem aparece é o vizinho.
Ou pelo menos deveria aparecer.
A vida real continua acontecendo longe dos palanques. É o vizinho que empresta uma ferramenta. É o amigo que leva ao hospital. É o parente que ajuda numa dificuldade. Nenhum líder político substitui essas relações.
Quando a política destrói esses laços, sobra apenas o isolamento.
“Desconfie de quem vive dividindo”
Fantinel faz um alerta que merece reflexão. Políticos passam. Governos passam. Presidentes passam. Mas as comunidades permanecem.
Quem vive alimentando ódio e divisão pode até ganhar votos no curto prazo. Porém, deixa um prejuízo difícil de reparar. A desconfiança cresce. As amizades desaparecem. As famílias se afastam.
Nenhuma eleição vale a perda da convivência
O Brasil precisa discutir economia, segurança, saúde e educação. Isso é natural na democracia. O problema começa quando a divergência política se transforma em motivo para romper amizades, abandonar familiares e enxergar inimigos onde antes existiam apenas pessoas com opiniões diferentes.
O velho Benjamim, citado pelo deputado aos 94 anos, talvez tenha entendido algo que muita gente esqueceu: uma comunidade forte não se constrói com curtidas, compartilhamentos ou discursos inflamados. Ela se constrói com presença, solidariedade e respeito. E isso não tem lado político.
Redação, João Lemes. Fonte: Pronunciamento do deputado Beto Fantinel. ✍️



