Santiago – RS – (João Lemes) – Quando cheguei a Santiago, Júlio Ruivo era muito jovem e fazia uma oposição saudável ao governo Vulmar Leite. Vi de início que era uma pessoa equilibrada, inclusive nas críticas. Acompanhei sua trajetória, que começou como vereador, e seus mais de 20 anos de vida pública. Somou-se ao lado do grande Chicão, que eu dia me disse: “Ruivo é melhor que eu”

Talvez justamente essa maneira de ser não tenha feito dele um deputado.
Na atual conjuntura, parece que você precisa extrapolar para um lado ou para o outro. Se ficar meio morno, já viu: não conquista muito.
Na disputa estadual, Ruivo, do PP, recebeu 21.495 votos, sendo 10.193 em Santiago. Foi sua terceira tentativa, com votação menor que em 2022, quando chegou a 27.808 votos, dos quais 14.055 no município. Magdiel Bissaco, do PL, vereador mais votado da história de Santiago, concorreu pela primeira vez e fez 8.779 votos, sendo 6.959 aqui. Os dois ficaram como suplentes.

Os acertos de Ruivo
Ruivo merecia estar na Assembleia? Claro que sim. O partido apoiou? Sim. Foi a terceira vez. Mas quero começar pelos acertos, porque, na minha avaliação, eles são a maior parte dessa trajetória. A entrevista que concedeu à Rádio Santiago, e que nós republicamos, foi magnífica. Falou (quase)( só verdades.

Ruivinho para cá, Ruivinho para lá
Disse que cada região tem seu candidato. Que é “Ruivinho” para cá, “Ruivinho” para lá, mas, na hora do voto, esse vai para outro. Que a região não se une em torno de uma candidatura. É verdade que a divisão de votos em Santiago é muito grande. Também reconheceu que ficou praticamente quatro anos fora da mídia. Foi dizendo muitas verdades e, talvez triste ou desiludido, falou que não quer mais a vida pública. Eu acredito que Ruivo ainda tinha muito a dar.


Outra questão certeira foi o dinheiro de campanha. Aliás MILHÕES
É uma vergonha essa distribuição desenfreada. Ele tem razão ao cobrar que o Ministério Público examine isso. Imagina um candidato a federal que recebe dois ou três milhões e distribui apoio aos demais conforme os critérios de quem controla o dinheiro. Para estadual, a lógica também pesa. Quem recebe quanto? Por quê? Com que critério? Isso precisa ser transparente.

Mas não dá para culpar só o dinheiro
Nem somente a falta de união da região. Na hora do partido e dos interesses, muita gente não está ligando para saber se o município está unido, se vai perder recursos ou se vai ganhar. O voto segue outros caminhos, e a campanha precisa entender isso.
A presença de quem pede voto
Outra verdade que Ruivo levantou foi a ausência de quem recebeu votos em Santiago na época das enchentes. Cadê essas candidaturas quando o município precisa? É uma cobrança justa. Pedir voto e depois desaparecer não deveria ser uma rotina aceita com facilidade.
Mas a questão também tem suas contradições. Ruivo, você apoiou o Amaral, de Alegrete, e saiu com ele várias vezes. Pelo que tenho acompanhado, não era alguém presente em Santiago. Veio agora e fez quase dois mil votos, com um resultado proporcionalmente expressivo fora da sua cidade. Quer dizer: burro bom se vende na querência, mas ele saiu para buscar apoio fora. Então, essa questão do candidato da região é bastante relativa. Os de fora também vêm, encontram apoio e levam votos.
A formação de redes
E quanto ao que existe de mais atual, o network, a formação de redes? Será que Ruivo soube manter e ampliar suas relações, cultivar contatos e estar perto de quem poderia ajudar a levar sua candidatura adiante? Durante o tempo em que ficou afastado da mídia e da vida pública, será que essa presença não acabou fazendo falta? Não digo que seja erro nem acerto. É uma pergunta.
Maquiavel já tratava da importância dos apoios e das alianças para os príncipes.
Essa preocupação não é de hoje. Maquiavel já tratava da importância dos apoios e das alianças para os príncipes. Naquele tempo não se falava em network, mas, trazendo para a nossa conversa, a ideia é esta: obtenha apoio, faça acertos, faça acordos. Se não der com o mais forte, veja o que pode construir com o mais fraco. Sozinho não vai resolver. Uma campanha não se constrói só quando chega a eleição. As redes vão sendo formadas antes, no contato, na conversa e na presença.
O que faltou à campanha
Nosso Ruivo não é um sujeito de chegar pelas emoções. Parece um tanto tímido. Não vai com força para um lado nem para o outro. Isso pode ter freado a candidatura, principalmente junto com o afastamento da mídia. Não é uma crítica à sua conduta. É uma análise da campanha e do ambiente em que ela aconteceu.
Memória curta
Se ele sonhava mesmo em ser deputado, ao sair da prefeitura precisava continuar presente. Poderia assumir um posto em alguma entidade. Poderia até concorrer novamente a vereador. Mas não podia ficar fora, porque as pessoas esquecem. A trajetória continua existindo, só que deixa de estar na conversa do dia a dia.
Na Rádio Santiago, enumerou muitas obras que fez. Verdade. Houve obras, acertos. Mas também não resolve ficar enumerando o passado. As pessoas querem saber o que você vai fazer dali para diante. O que fez já é delas. Está entregue. Acabou. Uma campanha precisa mostrar o próximo passo, não apenas lembrar o caminho percorrido.
A política virou identidade
Hoje, já vi gente votar em corruptos. Já vi eleitores continuarem apoiando quem os ofendeu, até com aquela conversa de que bebem detergente. Quer dizer: nem sempre é a ajuda, o recurso ou a qualidade que decide. Muitas vezes é a ideologia.
E essa ideologia política passou a ser identidade das pessoas. Querem aquele porque odeiam o outro. Identificam-se com um lado e pronto. A política ficou parecida com time de futebol. Nesse ambiente, equilíbrio, experiência e boa conduta nem sempre entram na balança com o peso que deveriam.
Não culpem Magdiel
E não dá para colocar a conta em Magdiel Bissaco. Muitos disseram que ele tinha de apoiar Ruivo, que não podia concorrer. Isso também é relativo. Outros candidatos vêm de fora e levam votos. Por que justamente um vereador daqui deveria abrir mão do que pretende?
Magdiel está no partido dele, fez sua escolha e lutou pelo que quer. Fez certo ao exercer esse direito. A liberdade é isso. Ninguém pode tratar os votos dele como se estivessem automaticamente reservados a outro candidato.
Por isso, dentro dessa análise dos erros e acertos de Júlio Ruivo, digo com segurança: a maior parte é acerto. É um homem de conduta ilibada, um dos raros que conheço na vida pública sobre quem não tenho uma linha que o desabone. Isso é raro hoje. Infelizmente, também não garante voto.
Ruivo merecia uma cadeira? Na minha opinião, sim. Mais: nós merecíamos um deputado.
Mas reconhecer seu valor não exige que procuremos um culpado pela derrota. Exige um olhar para os acertos, para o que faltou e para uma política que, cada vez mais, premia a identificação emocional antes de pesar a trajetória. Continuo acreditando que ele tinha muito a dar. (João Lemes)
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