Santiago – RS – (por João Lemes) – Existe uma ideia antiga, ultrapassada e perigosa que ainda atravessa gerações: a de que a mulher pertence ao homem. Esse sentimento de posse não nasce de um dia para o outro. Ele é aprendido, repetido dentro de casa, reforçado em muitos ambientes e, quando ninguém o enfrenta, pode crescer até se transformar em violência.
Nesta semana, Santiago viu um homem ser condenado a mais de 25 anos de prisão por tentativa de feminicídio. Agora, outro júri se aproxima: um jovem responderá por, segundo a acusação, desfigurar o rosto da namorada de apenas 14 anos. Dois casos diferentes, mas que levam à mesma reflexão.
Chama a atenção outro detalhe. Em muitos casos de violência contra a mulher, o agressor ataca justamente o rosto. Como explicou ao NP Expresso a promotora de Justiça de São Francisco de Assis (CAROLINA ELISA REINHEIMER), é uma forma de atingir aquilo que primeiro identifica uma pessoa, sua imagem, sua identidade, sua autoestima. Não basta agredir; o agressor quer marcar, humilhar e destruir.
É um comportamento que revela muito mais do que um ataque físico: revela uma tentativa de apagar a individualidade da vítima.
É por isso que essa mudança precisa começar cedo. O respeito não se ensina apenas quando o filho vira adulto. Ele começa na infância, dentro de casa, na escola e em cada exemplo dado pelos pais.
Eu só me darei por satisfeito no dia em que vir um homem dizer que vai sair de um grupo porque nele há alguém que bate na esposa. Também me sentirei realizado quando ouvir alguém afirmar: “Não compro mais naquela loja, porque o dono é machista e agride a companheira.”
Precisamos que os homens também levantem essa bandeira. O combate à violência contra a mulher não é uma luta apenas delas. É uma responsabilidade de todos nós.
O menino precisa aprender que a menina não é sua propriedade, que ninguém pertence a ninguém e que um relacionamento termina quando um dos dois assim decide. Amor nunca foi posse. Quem ama respeita. Quem ama aceita um “não”. Enquanto essa lição não for passada de geração em geração, continuaremos vendo famílias destruídas, mulheres feridas e tribunais julgando tragédias que poderiam ter sido evitadas.
(veja a reportagem completa no seu Expresso desta semana)
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