Nacional – O ministro André Mendonça retirou o sigilo do relatório que reúne mensagens recuperadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro. Os arquivos mostram contatos atribuídos ao banqueiro com Alexandre de Moraes nos dias que antecederam a primeira fase da Operação Compliance Zero. Vorcaro foi preso 48 horas depois de perguntar se deveria deixar o país.

As mensagens recuperadas
Segundo a Polícia Federal, Vorcaro escrevia no bloco de notas do celular, tirava uma captura de tela e enviava o arquivo pelo WhatsApp com visualização única. Mais de 40 arquivos com esse padrão foram localizados pelos investigadores.
Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro encaminhou a Moraes:
“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

A operação ocorreu na segunda-feira, dia 17. O banqueiro foi preso quando tentava embarcar num jato particular no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Conforme a investigação, o destino seria Malta, na Europa.
Os pedidos de ajuda
Ainda no dia 15, Vorcaro citou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Para os investigadores, o conteúdo pode indicar um pedido de proteção ou interferência:
“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília.”
Outra mensagem dizia:
“Muita sacanagem isso. Esses caras devem estar sabendo que estou resolvendo tudo essa semana e querem acabar com tudo antes.”
Conforme o relatório, Vorcaro considerava importante que seu interlocutor reforçasse com Andrei e Paulo a necessidade de impedir que subordinados da Polícia Federal e do Ministério Público fizessem “alguma sacanagem”, pois, segundo ele, “aí vai tudo pro saco”.
A tentativa de encontro
No domingo, dia 16, Vorcaro voltou a mandar mensagens e tentou marcar uma reunião com Moraes:
“Podemos nos ver amanhã rapidamente, algum horário?”
Vinte minutos depois, escreveu:
“Às 14h então. Passo na sua casa ou prefere na minha?”
O relatório não informa se o encontro aconteceu. Também não apresenta as respostas de Alexandre de Moraes às mensagens. Os arquivos recuperados mostram os textos enviados por Vorcaro, mas não permitem conhecer o conteúdo completo das conversas.
A “gratidão da vida”
Um dia antes, em 14 de novembro, Vorcaro havia enviado agradecimentos ao ministro:
“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você.”
Depois, acrescentou:
“Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada para conseguir concluir, se Deus quiser.”

O contato entre os dois
O relatório aponta que a aproximação começou no fim de 2023. Em 26 de dezembro daquele ano, o ex-ministro Fábio Faria teria encaminhado a Vorcaro o contato de Moraes depois de uma reunião. No dia seguinte, Faria mencionou um almoço marcado para o dia 30, num hotel em Campos do Jordão.
A Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro conversas com um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”. O documento também registra que, em setembro de 2025, esse contato passou a usar mensagens temporárias, apagadas automaticamente depois de 24 horas.
Em outro texto recuperado, Vorcaro tratou da tentativa de antecipar investidores e de possíveis vazamentos:
“Estou tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. E aí eu irei pra lá pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros. De um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhe. Mas a turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo, mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.”
O contrato milionário
A investigação também encontrou uma versão do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O acordo previa pagamentos que alcançariam 131,2 milhões. Metadados indicaram uma edição feita por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório confirmou que Moraes acessou e editou o arquivo. Segundo a banca, o setor de compliance consultou o ministro para verificar possíveis impedimentos legais, pois ele é marido da sócia-diretora. O escritório afirmou que o contrato não previa atuação no STF e que não havia impedimento.
Em março de 2024, Vorcaro também enviou mensagens a Ângelo Silva, sócio do Master, classificando o pagamento ao escritório de Viviane como o “mais importante”. O Banco Master pagou mais de 80 milhões antes da interrupção do contrato.
A operação
A Polícia Federal abriu a Compliance Zero em novembro de 2025 para investigar a emissão de títulos de crédito supostamente falsos por instituições financeiras, entre elas o Banco Master. Vorcaro foi solto duas semanas depois e voltou à cadeia em março de 2026, durante uma nova fase da operação.
O caso chegou ao STF por suspeita de envolvimento de autoridade com foro privilegiado. Dias Toffoli assumiu inicialmente a relatoria, mas deixou o processo em fevereiro. André Mendonça passou a comandar a investigação.
A reação da PGR
Depois da divulgação do relatório, Paulo Gonet pediu sua anulação. O procurador-geral argumentou que Mendonça não poderia ter determinado o aprofundamento das investigações sobre outro ministro sem uma solicitação da Procuradoria-Geral da República.
“Mesmo que, casualmente, fosse encontrado algum indício do que o relator entendesse ser irregularidade de interesse penal, não caberia a ele aprofundar as pesquisas sobre o Colega – vale dizer, não caberia a ele determinar que se investigassem com mais detimento referências ao Colega”, escreveu Gonet.
André Mendonça afirmou que os novos elementos deverão ser analisados pelo plenário do STF, em sessão pública e presencial. A Corte ainda definirá a data. Até essa análise, o relatório registra mensagens atribuídas a Vorcaro, mas não representa uma conclusão definitiva sobre eventual participação de Moraes em irregularidades. (Redação, João Lemes. Fontes: GZH e relatório da Polícia Federal)
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