A criança, o brincar e as telas

Vivemos em uma sociedade recheada de zumbis, robotizados pelas redes sociais, vidrados em suas telas

Publicado em

(Maria Aparecida Azzolin)

Doutora em Educação, Psicanalista e Pedagoga UFSM

            Filmes de zumbis sempre me apavoram, porque fico pensando no “e se” acontecer? Mortos vivos perambulando pelas ruas atrás dos poucos vivos restantes, para comerem seus cérebros ativos e corações pulsantes…. apenas ficção! Será? Vivemos em uma sociedade recheada de zumbis, que não comem cérebros, mas que estão robotizados pelas redes sociais, vivem vidrados em suas telas. Basta observar as pessoas nas ruas, restaurantes, cinema e até em encontros românticos. A selfie e a postagem vale mais do que o momento. Uma catástrofe!

Nesse exercício de observação, percebo crianças da mais tenra idade, totalmente alheias ao mundo, absorvidas pelas telas e seu mundo pré-estabelecido, quietinhas, comportadas, sem birras e sem questionamentos.  Só que tudo isso traz malefícios, porque a criança apreende o mundo a partir da interação com os adultos, fazendo birra, perguntando, observando e conversando. 

A correria do dia-a-dia é sufocante, trabalhar 8/10 horas por dia é extenuante, então ao chegar em casa é muito melhor entregar um celular ao filho (a), assim, a criança se entretém e os pais podem desfrutar de um momento de paz e calmaria, também, no celular. Precisamos refletir!

O pesquisador francês Michel Desmurget (2023) apresenta dados comprovando que essa geração é primeira onde o QI (Quociente de Inteligência) dos filhos é menor do que os dos pais. Então, o que nós adultos estamos fazendo com nossas crianças? Que futuro teremos?

Criança precisa brincar, conversar, interagir, fazer birra…tudo faz parte do ser criança. Crianças que crescem com mínima interação com os adultos, serão adultos com dificuldades de se relacionar, egoístas, egocêntricas, com baixa capacidade de colaboração, com menos criatividade, ansiosas e com maior pré-disposição a depressão.

 “Deem telas a seus filhos, os fabricantes de telas continuarão dando livros aos deles”

O filósofo e ensaísta Byu-Chul Han (2015), escreve que cada época tem suas enfermidades fundamentais e o século XXI não é definido por enfermidades virais ou bacteriológicas, mas sim por enfermidades neuronais, como a depressão, transtorno de déficit de atenção (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) e Síndrome de Burnout.

Como tudo na vida pode nos fazer bem, ou pode nos fazer mal, dependendo da dosagem. Um exemplo: a água, fundamental para o nosso corpo, mas em excesso, pode nos matar. Assim é a tecnologia, no tempo presente se tornou essencial, mas se não soubermos dosar, morreremos, sufocaremos afogados em um mundo virtual e viraremos zumbis. Super dramático, mas infelizmente, real.

Nós, seres humanos, como mamíferos que somos, interagimos na infância através do brincar.  Criar mundos de imaginação é fundamental para o desenvolvimento infantil, isso possibilita que a criança amplie sua criatividade, supere medos, se reconheça como pessoa autônoma, desenvolva habilidades, etc.

Nos constituímos como adultos a partir do que vivemos na infância. Nos formamos a partir de histórias vividas cotidianamente. Uma criança que não brinca e não fantasia, será um adulto com maiores dificuldades de relacionamento e de compreensão do mundo e de si, bem como, menos criativo e empático.

O jornalista francês, doutor em sociologia, Guillaume Erner faz um alerta dizendo que “deem telas a seus filhos, os fabricantes de telas continuarão dando livros aos deles” (Apud Desmurget, 2023, p.12). Para entendermos as emoções do outro, precisamos observar suas ações, mas, para isso, precisamos realmente olhar, sem pré-julgamentos e pré-conceitos. Como fazer isso se estivermos inteiramente absortos em uma tela?

Criança precisa fazer birra e ponto final. Convido aos pais a substituírem a tela do celular, por uma tela plástica, para pintar, se sujar, rir e brincar com seus filhos. Substituir as telas eletrônicas por pisar na terra, imaginar formas nas nuvens e mundos feitos de algodão. Trocar o celular por um livro, onde mundos mágicos tornam a vida mais feliz. Criar monstros e fadas com massinha de modelar.

Construir castelos de palitos de fósforos ou palitos de picolé, depois de se deliciar com um acalanto gelado. Cantar, gargalhar, contar histórias do passado, para que cada criança saiba que tem um antes, que nos constituiu e um amanhã que pode ser como ela quiser, porque somos construtores de mundos. Precisamos lembrar que o amanhã é logo ali, e o que estamos fazendo para que ele seja um pouquinho melhor?

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