(João Lemes)* A busca por uma felicidade idealizada é um tema central nas histórias do homem triste, de Fantoches, de Érico Verissimo, e da menina com o pássaro encantado, mencionada por Rubem Alves. O homem triste cria uma imagem perfeita da jovem cega que observa à distância, enquanto a menina idealiza o pássaro livre como algo que pode ser possuído. Essa idealização, é um processo mental onde projetamos qualidades irreais em pessoas ou objetos. Como disse Sêneca: “A felicidade é como uma sombra: quanto mais você a persegue, mais ela se afasta.” Quando o homem descobre que a jovem nunca o viu, ele enfrenta a desilusão, um fenômeno estudado na psicologia como a frustração de expectativas irrealistas.
A felicidade existe apenas de longe; quando chegamos perto, ela se dissipa.
O controle como prisão: quando o desejo sufoca a liberdade
A menina que aprisiona o pássaro encantado ilustra outra face da busca pela felicidade: o desejo de controle. Ela crê que, ao prender o pássaro, garantirá sua felicidade eterna. No entanto, ao fazer isso, ela destrói o encanto que o tornava especial. Na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, a liberdade é um valor inerente à condição humana. Ao tentar controlar algo que é essencialmente livre, a menina nega essa liberdade e transforma o pássaro em algo triste e sem vida. Isso reflete o paradoxo da posse: ao tentar fixar algo, perdemos sua essência.
A neurociência da frustração: como o cérebro reage à busca da felicidade
A neurociência nos ajuda a entender por que a busca pela felicidade idealizada ou controlada frequentemente falha. A dopamina, neurotransmissor associado ao prazer, é liberada quando nossas expectativas são atendidas. No entanto, quando essas expectativas não se realizam, como no caso do homem triste, o cérebro experimenta frustração e dor emocional. Estudos mostram que áreas como a amídala são ativadas durante essas decepções. Além disso, o estresse crônico gerado pelo controle excessivo pode levar a problemas físicos e mentais. A neuroplasticidade, no entanto, oferece esperança: ao aceitar a realidade, o cérebro pode se reorganizar para encontrar novas formas de bem-estar.
A sabedoria antiga: Aristóteles e o florescimento humano
Aristóteles define a felicidade como Eudaimonia ou florescimento humano, alcançado não por prazeres momentâneos, mas pela realização do nosso potencial através da virtude e da razão. O homem triste e a menina com o pássaro buscam felicidade em projeções externas, ignorando o verdadeiro significado de eudaimonia. Para Aristóteles, a felicidade autêntica está em viver de acordo com nossa natureza racional e virtuosa, não em perseguir desejos insatisfeitos. A história do homem triste serve como um lembrete de que a felicidade não está em ideais distantes, mas em nossa capacidade de lidar com a realidade.
O sofrimento do desejo: Schopenhauer e a insatisfação humana
Arthur Schopenhauer argumenta que o desejo é a raiz do sofrimento humano. Enquanto buscamos algo fora de nós para nos preencher, criamos um ciclo interminável de insatisfação. O homem triste deseja a jovem como fonte de felicidade, mas sua busca é infrutífera porque baseia-se em uma projeção irreal. Da mesma forma, a menina deseja o pássaro como símbolo de amor eterno, mas ao tentar possuí-lo, ela destrói o próprio objeto de seu desejo. Schopenhauer nos ensina que a felicidade verdadeira só pode ser encontrada ao transcender o desejo e aceitar a impermanência da vida.
A aceitação é o caminho
A prática do *mindfulness oferece uma solução para a busca incessante pela felicidade. Ao estar plenamente presente no momento, sem julgamento, podemos aceitar a realidade como ela é. A menina que liberta o pássaro e o homem triste que aceita a verdade sobre a jovem estão, de certa forma, praticando *mindfulness. Filósofos como Heráclito enfatizam que a mudança e a impermanência são as únicas constantes na vida. A felicidade, portanto, não está em tentar controlar ou reter momentos de prazer, mas em abraçar a fluidez da existência. Como Viktor Frankl escreveu em “Em Busca de Sentido”: a felicidade verdadeira vem de encontrar significado mesmo nas adversidades.
Essas reflexões nos convidam a repensar nossa busca pela felicidade. Seja por meio da psicologia, da neurociência ou da filosofia, fica claro que a felicidade não está em ideais distantes ou no controle obsessivo, mas na aceitação da realidade e na capacidade de encontrar significado nas experiências cotidianas.
*O Mindfulness (ou “atenção plena”) é uma técnica de desenvolvimento pessoal para atingir um estado de presença e consciência intencional do corpo e da mente. Com a técnica de Mindfulness, a pessoa se torna mais ciente de suas emoções, pensamentos e sensações físicas no momento presente e sem julgamento.
*João Lemes é jornalista, professor-doutor em educação e estudioso da filosofia
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