OPINIÃO NP – O jovem não tem “falta de caráter” pura e simples; os problemas são uma mistura de biologia com ambiente e contexto

E mais: dinheiro não blinda contra solidão, hiperexposição, permissividade, sensação de impunidade e cultura de agressão

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(João Lemes – professor-doutor em educação, com pesquisa em relação aos adolescentes)
Adolescência é uma fase em que o cérebro ainda está “em obra” e isso pesa no comportamento. A parte que segura impulso, planeja e mede consequência amadurece mais tarde enquanto o sistema de recompensa e emoção reage forte ao agora. Daí vêm mais busca por risco, irritação rápida e decisões no calor do momento.
Some a isso fatores bem comuns hoje, pouco sono, estresse crônico, muita tela e estímulo (gerando incapacidade de lidar com o tédio), pressão por desempenho, conflitos em casa, álcool e outras drogas e você tem mais chance de ansiedade, depressão e explosões. Não é “falta de caráter” pura e simples, é uma mistura de biologia com ambiente e contexto.

A depressão e a agitação têm crescido em vários lugares e isso aparece em dados grandes. Nos EUA, a pesquisa escolar CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) aponta números altos de tristeza persistente e pior saúde mental em estudantes, com recortes por sexo e outros fatores. Ao mesmo tempo, a WHO reforça que depressão, ansiedade e transtornos de comportamento estão entre as principais causas de adoecimento em adolescentes. E existe um empurrão moderno que ninguém pode ignorar, o ambiente digital.

Especialistas alertam que as redes sociais NÃO são “suficientemente seguras” para crianças e adolescentes; há riscos como comparação social, bullying, conteúdo nocivo e uso quase constante. Isso atinge também quem nasceu em família rica, porque dinheiro não blinda contra solidão, hiperexposição, permissividade, sensação de impunidade e cultura de agressão.

Sobre a violência do “encostou no carro” ou até maltratar um cachorro, a origem costuma ser um combo: baixa tolerância a frustração, pouca empatia treinada no dia a dia, impulsividade, modelo de agressividade visto em casa ou no grupo, e falta de limite claro com consequência real.

A saída funciona melhor quando é prática e em rede. Pais presentes com afeto e regra simples e firme, escola com mediação e acolhimento, sono e rotina protegidos, redução de tela com supervisão, e espaços saudáveis de pertencimento. Tratamento entra quando há sinais de depressão, agressividade frequente, crueldade, uso de substâncias ou risco. Aí vale avaliação com psicólogo e, em alguns casos, psiquiatra, não como “rótulo”, mas para entender o quadro e agir cedo. Programas de prevenção de violência na adolescência e intervenções familiares são recomendados como saúde pública.

Acompanhe o NP pelas redes sociais:

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