EDITORIAL – Feminicídio não é estatística, é tragédia repetida

Os números no RS revelam violência diária e avanço lento na proteção às mulheres

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Em 2026, já são mais 20 casos, um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano passado.

Estado – RS – Embora muitos banalizem os dados ou se acostumem com as manchetes, os números revelam uma realidade dura. Levantamento com base no Observatório da Violência contra a Mulher da Secretaria de Segurança Pública, analisado pelo jornalista santiaguense Leandro Molina, hoje atuando em Brasília, mostra que o Estado registrou 1.280 feminicídios entre 2012 e 2025. Em 2026, já são mais 20 casos, um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso representa, na prática, uma mulher com a vida interrompida a cada quatro dias.

Os números que chocam

  • 2012 a 2025: 1.280 feminicídios registrados no RS
  • 2026: mais 20 casos já contabilizados
  • Média atual: uma mulher perde a vida a cada quatro dias
  • 27.426 casos de estupro no mesmo período
  • Média de 5,36 estupros por dia
  • Uma mulher violentada sexualmente a cada quatro horas e meia

Anos mais críticos

  • 2018: 116 feminicídios — maior número da série histórica
  • 2023: 2.815 estupros — recorde no período analisado

O Observatório, criado em 2012 no governo Tarso Genro, também aponta milhares de registros de tentativas de feminicídio, ameaças e agressões com lesão corporal. Não se trata de casos isolados. É uma violência estrutural, persistente, alimentada por uma cultura machista ainda presente no Estado e no país.

Retrocesso institucional

A Secretaria de Políticas para as Mulheres, criada em 2011, foi extinta em 2015 e só recriada em 2025. Foram dez anos sem um espaço estratégico no Estado para coordenar políticas públicas voltadas às mulheres. Esse vazio institucional enfraqueceu programas, desarticulou redes de proteção e reduziu a capacidade preventiva. No enfrentamento à violência de gênero, a ausência do Estado também custa vidas.

Iniciativas e limites

Houve ações importantes ao longo dos anos, como a Frente Parlamentar dos Homens pelo fim da violência contra as mulheres, a lei da tornozeleira eletrônica para agressores, o Comitê Gaúcho Eles Por Elas (HeForShe), a Lei da Máscara Roxa e campanhas de conscientização. Medidas relevantes, mas insuficientes diante da dimensão do problema.

Não são apenas números
São histórias interrompidas, famílias marcadas e futuros apagados. Quando a sociedade passa a tratar esses dados como rotina, o risco é normalizar o inaceitável. Estatística não pode virar anestesia moral. Enquanto uma mulher for vítima dessa violência, o problema continua sendo de todos nós.

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