(João Lemes – Santiago – RS) Poucos sabem, mas eu fui literalmente escravizado por mais de dois anos em um fundão de campo, numa fazenda cujo prédio tinha 100 anos. Eu tinha 14, 15 anos, por aí, e estava lá porque a vida me obrigou àquela situação. Acabei parando lá.
Essa é apenas uma das minhas histórias (uma passagem de 2 anos que me pareceu um século). Tem coisa muito pior para trás.
O capataz era meu cunhado. Ele era o único empregado da fazenda. A esposa dele, minha irmã, os filhos pequenos deles, que eu ajudava a cuidar, e eu, lógico, não ganhávamos absolutamente nada além da comida e do teto. Digamos: um teto sem luz nem água encanada, água de poço e o resto você já pode imaginar.
Pois bem, se eu falar aqui do Paulo Freire, vão dizer que eu sou comunista, vão dizer que eu sou esquerdista e vão me colocar mil defeitos. Mas eu estudei Paulo Freire, Karl Marx, Hegel, Nietzsche, Cristo (o homem, não o mito) e tantos outros pensadores de várias correntes filosóficas. O que descobri? Que o oprimido não sabe que é oprimido; o opressor talvez também não saiba. E só quem pode sair dessa situação entre o opressor e o oprimido é o próprio oprimido.
O problema é que, quando o oprimido sai dessa situação, o grande prazer dele é se vingar e ser opressor. Então, isso se retroalimenta.
Mas, voltando à fazenda onde eu morei, eu me dei conta de que era escravo só depois que saí. Dois anos e tantos da minha vida eu amarguei lá. Claro, não perdi totalmente, porque aprendi a lidar com o gado, ensinar cavalo, percorrer invernadas. Fazia isso todos os dias. Você já sabe: sem ganhar nada.
E acredita que o fazendeiro vinha uma vez por mês no seu carrão? Chegava lá, eu encilhava o seu cavalo, pegava-o na invernada e encilhava. Na verdade, era uma égua picaça.
Um dia, joguei fora o relho dele lá numa encerra de porcos. Levei uma xingada. Aí é o seguinte: nunca ele me trouxe um chocolate, uma camisa, um chinelo que fosse. Mas, antes de ir embora, dizia: “Ah, vai juntar os gravetinhos pra levar pra minha velha fazer fogo e se esquentar.” Lá ia eu correndo, tudo bem.
Um dia, recebi uma proposta de outra irmã, que morava em Alegrete e tinha uma vida um pouco melhor, para eu morar com ela. No dia em que arrumei as trouxas, esse patrão chegou e disse: “Tu vai ir pra lá? Olha que vai te faltar comida.”
A prova de que ele achava que fazia muito por mim era me dar comida.
Bom, esse tempo se foi. Eu estou aqui, estudei, aprendi, montei minha empresa, fui empregado, sou patrão, sou empregado, sou jornalista, professor (fiz doutorado em Educação pela UFSM), sou palestrante, sou escritor… O que quiserem dizer de mim, digam. Mas eu sei que muitos olham e pensam: “Te lembra quando tu chegou em Santiago? Não tinha nada?”
Então, vejam bem. Tem uma parte da sociedade que está esmagada e luta para sair dessa. Não digo escravo, porque esse termo se foi, e isso revolta muitas pessoas. Muitos ainda querem que a pessoa trabalhe a troco de nada ou, quem sabe, por um prato de comida.
Aí alguns saem a praguejar, porque acham que muitos ainda devem trabalhar de graça, por um prato de comida, talvez.
Sim. Eu sei que muitos da sociedade, capitalistas fervorosos, não gostam de ver o seu irmão, o seu semelhante, mudar de vida. Eles querem que ele fique lá para poderem dizer: “Eu ajudo, eu faço”, e não ver essa pessoa crescer. Já outros capitalistas pensam melhor. Juntam riquezas e ajudam os mais fracos. Centralizam o capital, mas ajudam meio mundo. Sobem, e levam muitos com eles, abrem oportunidade. São desses que precisamos. E mais: precisamos de educação. Muita educação. Só assim não haverá mais tantos joões (certo assim a grafia) que sejam escravos por aí.

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