Alexandre Ramagem vai depor hoje na Polícia Federal
Contexto da Investigação Alexandre Ramagem foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro. A operação apura o uso indevido de sistemas da Abin para monitorar políticos, autoridades e jornalistas.
Ramagem é acusado de gravar uma reunião em que se discutia o uso de órgãos públicos para interferir em investigações contra o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro.
Detalhes da Operação
A operação investiga ações desde 2023, envolvendo a criação de perfis falsos e a disseminação de informações inverídicas. Um áudio, supostamente gravado por Ramagem em 2020, revela uma conversa sobre o caso das “rachadinhas” de Flávio Bolsonaro, sugerindo tentativas de interferência nas investigações.
Uma das linhas de investigação é de que se buscou tirar as pessoa do processo de investigação ao filho do ex-presidente
Função da Abin e implicações
Como principal órgão do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin), a Abin tem a função de fornecer informações estratégicas ao governo. As ações investigadas pela PF indicam um desvio dessa função, com a Abin sendo supostamente utilizada para fins políticos e pessoais, incluindo a monitoração de membros dos três poderes e jornalistas.
Repercussões e Defesa
Ramagem, agendado para depor à Polícia Federal, nega as acusações de interferência. A operação revelou tentativas de desacreditar o Poder Judiciário e o sistema eleitoral brasileiro, além de envolver difamação contra ministros do STF e esforços para proteger familiares de Bolsonaro de investigações.
SOBRE O ÁUDIO
Gravação
Segundo a gravação, durante a reunião as advogadas de Flávio Bolsonaro discutem formas de obter informações sobre a investigação envolvendo o senador na Receita Federal e no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).
Durante um trecho do áudio, Bolsonaro e o general Heleno demonstraram preocupação com o vazamento da conversa.
Heleno afirma: “Tem que alertar ele (chefe da Receita), ele tem que manter esse troço fechadíssimo. Pegar de gente de confiança dele”.
Entenda o que a operação revelou sobre a Abin paralela
Família Bolsonaro
A Polícia Federal apontou a “instrumentalização” da Abin para monitorar pessoas ligadas a investigações envolvendo familiares do ex-presidente Jair Bolsonaro. Um exemplo é o caso dos auditores da Receita que elaboraram o relatório que originou a investigação do esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro, filho dele.
No relatório, os investigadores destacam que Marcelo Bormevet e Giancarlo Rodrigues, atuando clandestinamente a serviço da Abin, tentaram “achar podres” dos auditores da Receita Federal responsáveis por elaborar relatórios de inteligência financeira sobre o senador.
Outro exemplo, segundo a Polícia Federal, é a criação de provas a favor do “filho 04” do ex-presidente, Jair Renan Bolsonaro, que em 2021 era investigado por tráfico de influência. Para isso, o “gabinete paralelo”, conforme as investigações, monitorou Allan Lucena, ex-sócio de Jair Renan, e Luís Felipe Belmonte, empresário envolvido no caso.
O ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, e o ex-presidente Bolsonaro não foram alvos da operação de quinta-feira. Procurados pela reportagem, não se manifestaram sobre as denúncias. O senador Flávio Bolsonaro e Jair Renan negaram qualquer irregularidade.
Ataques ao Supremo
A investigação também revelou ações de difamação contra os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Segundo a PF, Marcelo Bormevet, que atuava na Presidência da República, e Giancarlo Rodrigues, na Abin, produziram dossiês falsos e disseminaram fake news para minar a credibilidade das autoridades.
O material falso contra Moraes, encontrado em um dispositivo de armazenamento, tentava associar o ministro ao delegado Osvaldo Nico Gonçalves. O objetivo era espalhar desinformação e atacar a credibilidade do STF.
As ações contra Barroso incluíam a criação de informações falsas, relacionadas a declarações de perfis nas redes sociais.
De acordo com a PF, essas movimentações faziam parte de um esforço maior para desacreditar o Poder Judiciário e o sistema eleitoral brasileiro.
CPI da Covid
Conforme as investigações da PF, a Abin também teria sido utilizada clandestinamente contra o senador Alessandro Vieira, que participava da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid do Senado.
O colegiado investigava possíveis irregularidades cometidas pelo governo Bolsonaro na condução da pandemia no país. Ao final dos trabalhos, a comissão propôs o indiciamento do ex-presidente, de ex-ministros e de várias pessoas ligadas a Jair Bolsonaro.
Alessandro Vieira apresentou um requerimento para que Carlos Bolsonaro, o “filho 02” de Jair, prestasse esclarecimentos à CPI e para que fossem quebrados os sigilos bancário, fiscal, telefônico e de mensagens do vereador do Rio de Janeiro.
Nesse contexto, os investigados Marcelo Bormevet e Giancarlo Rodrigues teriam atuado para produzir desinformação sobre Alessandro Vieira.
Minuta do golpe
De acordo com a investigação, além das possíveis irregularidades na instrumentalização da Abin, alguns dos supostos envolvidos no esquema tinham conhecimento de outras ilegalidades — como a “minuta do golpe” que circulou no governo Bolsonaro.
Durante as diligências, a PF interceptou mensagens trocadas entre Marcelo Bormevet e Giancarlo Rodrigues que incluíam, nas palavras dos investigadores, “referências relacionadas ao rompimento democrático” e “no mínimo, potencial conhecimento do planejamento das ações que culminaram na construção da minuta do decreto de intervenção”.
Os diálogos interceptados pela corporação indicam que policiais federais da “Abin paralela” tinham conhecimento da existência do decreto.
Alexandre de Moraes citado em conversa
Presos preventivamente na quinta-feira, Marcelo Araújo Bormevet e Giancarlo Gomes Rodrigues, atuavam no Centro de Inteligência Nacional da Agência Brasileira de Inteligência na gestão de Alexandre Ramagem. No diálogo mencionado no relatório da PF, a dupla discute a produção de um dossiê sobre o ministro do Supremo Alexandre de Moraes no qual tentam associar o magistrado a uma suposta investigação sobre corrupção.
No diálogo, um deles escreveu: “Tá ficando f… isso. Esse careca (Moraes) está merecendo algo a mais”. A resposta foi: “Só 7.62”, uma referência, para a PF, ao número do calibre de uma munição. “Head shot”, finaliza o interlocutor. Head shot significa tiro na cabeça.
Histórico da operação
A primeira fase da Operação Última Milha foi deflagrada pela PF em outubro do ano passado. À época, a corporação informou que investigava o uso indevido de sistema de geolocalização de dispositivos móveis sem a devida autorização judicial por servidores da própria Abin.
“De acordo com as investigações, o sistema de geolocalização utilizado pela Abin é um software intrusivo na infraestrutura crítica de telefonia brasileira. A rede de telefonia teria sido invadida reiteradas vezes, com a utilização do serviço adquirido com recursos públicos”, destacou a PF à época.
Desenvolvido pela empresa israelense Cognyte (ex-Verint), o FirstMile se baseia em torres de telecomunicações instaladas em diferentes regiões para captar os dados de cada aparelho telefônico e, então, devolver o histórico de deslocamento do dono do celular.
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