Dono de uma borracharia em São José dos Ausentes, Douglas Búrigo, 40 anos, é o segundo voluntário gaúcho morto na Guerra da Ucrânia.

Solidariedade, desejo por aventura e até dinheiro movem a legião estrangeira de combatentes no Leste Europeu
(o texto é de Humberto Trezzi, de Zero Hora) –
Voluntários para o martírio existem desde muito antes de Cristo. Apareceram de novo agora, após a invasão da Ucrânia por tropas russas. Em março, poucos dias após o início dos combates, localizei alguns brasileiros que se ofereceram para lutar do lado ucraniano. Inclusive uma gaúcha ajudava no recrutamento. O gaúcho que estava lá, André Bahi, foi o primeiro brasileiro a morrer em combate em solo ucraniano.
Na sexta-feira (1) mais dois brasileiros morreram quando um míssil atingiu o alojamento: o gaúcho Douglas Rodrigues Búrigo e a paulista Thalita do Valle.
A Ucrânia propagandeou no início da guerra que mais de 20 mil estrangeiros tinham se oferecido para lutar. Poucos chegaram lá. A Rússia, via Ministério de Defesa, anuncia que 635 combatentes de outros países foram identificados como atuantes no lado ucraniano. Desses, cerca de 20 seriam brasileiros.
O que move essa verdadeira legião estrangeira a atravessar mares até outros continentes, mesmo com a perspectiva muito provável de morrer? Solidariedade, asseguram os parentes do gaúcho Douglas e da paulista Thalita. Os dois disseram a familiares que iriam ajudar vítimas civis do conflito. Ela tinha um gosto por aventura.
Apesar do treinamento em manuseio de arsenais de diversos calibres, Thalita não fez carreira nas armas. Tinha curso de socorrista, era modelo e atuava numa ONG que cuida de animais. Fez curso de atiradora de elite e pretendia escrever um livro a respeito. Já Douglas e André foram militares do Exército brasileiro. É provável que o gosto por aventura tenha ajudado na decisão de se alistar agora, além do desejo de se solidarizar com os ucranianos.
Os estrangeiros correm um risco-extra, além dos bombardeios dioturnos e da possibilidade de serem mortos por snipers (atiradores de precisão): podem ser executados como espiões. Um tribunal da região separatista ucraniana de Donetsk (pró-russa) condenou três estrangeiros à pena de morte, dias atrás, por lutarem do lado da Ucrânia nesta guerra. Dois são britânicos e o terceiro, marroquino. A execução ainda não ocorreu.
Em mensagem por aplicativo a um amigo, o gaúcho Douglas Búrigo se mostrou ciente dos riscos e se queixou.
“Bah, louco…tô apavorado. Abateram um colega nosso aqui. Sorte que eu tava bem moqueado. O cara se foi, meu. Vou te falar a verdade, não sei se volto vivo. Mas se eu não voltar, quero que volte a bandeira”, manifestou Douglas.
O corpo dele ainda não foi transportado para o Brasil.



