O drama na segurança para o próximo governo

Os futuros governantes terão de ampliar a proteção, modernizar as investigações e enfrentar o crescimento da população carcerária

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Estado – RS – Os crimes violentos letais caíram de 3,2 mil vítimas, em 2017, para 1,3 mil em 2025. Os roubos também recuaram de 88,5 mil, em 2016, para 18,6 mil no ano passado. Os números mostram uma melhora importante, mas não significam que os problemas estejam resolvidos.

A criminalidade mudou e passou a exigir novas respostas do Estado. Enquanto os homicídios e assaltos diminuíram, os feminicídios voltaram a crescer, as fraudes migraram para celulares e computadores e os presídios receberam muito mais presos do que novas vagas.

A reportagem da Zero Hora aponta três desafios principais: proteger as mulheres ameaçadas, preparar a polícia para investigar crimes digitais e controlar a superlotação dos presídios. São questões que não dependem apenas de mais policiais ou novas cadeias, mas da participação conjunta da segurança, Justiça, saúde, educação, assistência social e iniciativa privada.

A violência contra a mulher
O Estado registrou 80 feminicídios em 2025, quase 10% a mais do que no ano anterior. As tentativas também aumentaram: foram 263 casos, diante de 236 em 2024. Até agosto de 2026, a Secretaria da Segurança Pública contabilizou outros 55 feminicídios.

A rede especializada ainda não alcança todas as regiões. O Estado tem 25 Delegacias da Mulher, duas delas em Porto Alegre. Apenas uma, também na Capital, funciona 24 horas. Em 2026, o governo anunciou uma nova delegacia em Santiago, mas regiões como o Litoral Norte e o Vale do Paranhana continuam sem esse atendimento.

A Patrulha Maria da Penha tem 63 equipes, atua em 114 municípios e acompanha quase 16 mil vítimas. Isso representa presença em cerca de 23% das cidades gaúchas. Outro problema é a falta de abrigos para mulheres ameaçadas, que muitas vezes não encontram um lugar seguro para deixar a própria casa.

O monitoramento eletrônico de agressores aparece como uma das medidas positivas. Cerca de 1,5 mil homens usam tornozeleiras, enquanto mulheres com medidas protetivas podem receber telefones que alertam quando o agressor se aproxima. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, nenhum feminicídio foi praticado por agressores acompanhados pelo sistema.

Os golpes virtuais
Os registros de estelionato aumentaram quase 374% entre 2016 e 2025. Somente no último ano, os golpes digitais cresceram cerca de 8%. O número real pode ser ainda maior, pois parte das vítimas não procura a polícia.

Entre 2020 e 2025, a polícia enviou 77.326 inquéritos de estelionato à Justiça. Em aproximadamente sete de cada 10 casos, nenhum suspeito foi indiciado. Foram 54.507 investigações nessa situação: 20.822 crimes não foram esclarecidos e outros 33.685 tiveram possíveis autores, mas faltaram provas para o indiciamento.

O Estado criou, em 2025, um departamento especializado em crimes cibernéticos. A unidade concentra o trabalho nos ataques ligados a organizações criminosas, enquanto as demais ocorrências seguem para delegacias comuns. Especialistas defendem grupos preparados para investigar crimes digitais em diferentes regiões.

Outro obstáculo é a pouca troca de informações entre as empresas e as forças de segurança. Bancos, operadoras e empresas de tecnologia acumulam dados sobre fraudes, invasões e vazamentos, mas parte desse conhecimento não chega aos investigadores. Uma integração maior poderia acelerar a identificação dos criminosos.

A superlotação dos presídios
A população carcerária ultrapassou 50 mil presos em 2025 e chegou a aproximadamente 57 mil em setembro de 2026, o maior número da história do Estado. Entre 2018 e 2026, houve um aumento de 17 mil presos, enquanto foram criadas 5.246 vagas.

O governo calcula que faltam 15.352 vagas. O Estado tem o quinto maior déficit prisional do país e mantém 113 presídios. Mesmo com a abertura de novas unidades, o número de presos cresce mais rápido do que a capacidade das cadeias.

A falta de espaço voltou a provocar cenas que não eram registradas havia anos. Em abril de 2026, presos ficaram dentro de viaturas diante de delegacias porque não havia onde colocá-los. O problema imediato foi resolvido, mas a Defensoria Pública afirma que a superlotação continua em várias regiões.

O Estado também tem 4.150 mulheres presas. Desse total, 1.120 estão em presídios femininos, 1.202 permanecem em unidades mistas e 1.828 são monitoradas por tornozeleiras. Há ainda dificuldades para bloquear telefones dentro das cadeias, principalmente no presídio de alta segurança de Charqueadas.

As possíveis saídas
Especialistas defendem a ampliação da Patrulha Maria da Penha, mais delegacias especializadas e uma rede de abrigos capaz de atender mulheres em todas as regiões. A formação sobre violência doméstica já faz parte dos cursos de novos policiais, o que pode facilitar a criação de outras equipes.

Para enfrentar os crimes virtuais, a proposta é especializar investigadores, aproveitar as 27 delegacias de combate ao crime organizado e aumentar a troca de informações com bancos e empresas de tecnologia. Muitos golpes não são ações isoladas, mas operações comandadas por grupos organizados.

Nos presídios, a construção de vagas é considerada necessária, porém insuficiente. Os especialistas sugerem uma central para controlar a ocupação, revisar prisões provisórias nos casos previstos em lei, acelerar progressões de regime e fortalecer alternativas penais.

Também será necessário acompanhar quem deixa a cadeia. Educação, trabalho, qualificação profissional e assistência social são apontados como caminhos para reduzir a reincidência. O diagnóstico mostra que a segurança pública precisa de planejamento permanente e ações integradas, pois nenhuma dessas mudanças produzirá resultado imediato. (Redação, João Lemes. Fonte: Zero Hora)

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