
Como um material tão útil e versátil que redesenhou a vida no século 20, pôde se tornar um problema tão monstruoso?
“A humanidade já produziu 9 bilhões de toneladas dele. 80% vão parar em lixões e nos oceanos, onde levam séculos para se decompor e contaminam o planeta. Cada pessoa ingere 20g de microfragmentos de plástico, o equivalente a uma pecinha de lego por mês. Mas avanços científicos prometem mudar isso. (Revista Superinteressante)

No mundo moderno, quase tudo é feito de plástico. Metade de todo o plástico já produzido foi fabricado a partir de 2004. É aí que ele começa a sair do controle e inundar o planeta. Dá para ver isso em fenômenos recentes, como a Grande Ilha de Lixo do Pacífico. Ou melhor: visível, a rigor, ela não é.
Atingindo os bebês: O plástico interfere com a placenta e podem afetar o bebê.
Mesmo estando dentro do corpo da mãe, onde há dezenas de trilhões de micróbios, o bebê se desenvolve num ambiente 100% estéril. Exceto por uma coisa ainda mais onipresente: plástico. Em setembro, um estudo de cientistas chineses detectou a presença de microplásticos (partículas com menos de 5 milímetros) na placenta humana (1).

Eles analisaram as placentas de 17 gestantes, e todas continham quantidades “muito abundantes” de microplásticos. Eram onze tipos, em especial o PVC, que é usado em canos (e estava presente em 43% das amostras), e o polipropileno, dos canudinhos e potes de margarina (14,5%).
Em março, pesquisadores da Universidade de Manchester demonstraram como o Bisphenol A (BPA), ingrediente presente em vários tipos de plástico, faz isso (2). O BPA está em garrafas plásticas, potes para guardar comida e até nas latas (elas são forradas com plástico por dentro).
Quando a gestante ingere fragmentos dessa substância, ela se espalha pelo corpo e chega à placenta – onde inibe um gene chamado ESRRG, que controla o crescimento do feto. Com isso, o bebê pode nascer menor – e sob maior risco de desenvolver pressão alta, diabetes e doenças da tireoide ao longo da vida.
Em 2020, cientistas da Universidade Cornell, nos EUA, coletaram amostras de ar em 11 pontos do país – e descobriram que, nelas, “chovem” mais de 1.000 toneladas de microplásticos por ano, a 120 milhões de garrafas PET (3).

Você já come uma pecinha de lego por mês
Mas suas principais fontes são a água e a comida. Um estudo da Universidade de Newcastle (5) analisou a quantidade presente em alguns alimentos, como peixes, mariscos, sal, cerveja, água, mel e açúcar e concluiu que cada adulto ingere em média 20 gramas de microplásticos, o equivalente a uma pecinha de lego, por mês.
Em dois estudos, de cientistas italianos e holandeses, 75% das amostras de leite materno analisadas continham microplásticos – e o sangue de 77% dos voluntários também (7).
Mais doenças
As consequências disso para a saúde ainda não estão claras. Estudos em animais sugerem que a ingestão de microplásticos pode provocar disfunções metabólicas e reprodutivas – e, em testes de laboratório os fragmentos causaram danos a células humanas (8).
Guerra ao plástico
É nesse cenário que, em março, a ONU assinou o primeiro acordo internacional de combate aos resíduos plásticos (9). Ele inclui mais de 70 países e é o maior pacto ambiental desde o Tratado de Paris, criado em 2015 para tentar frear as emissões globais de CO2. Mas, por enquanto, nada concreto ficou definido.
Os países envolvidos têm até 2024 para, aí sim, definir um cronograma de metas e obrigações. No fim de novembro, a União Europeia propôs uma série de novas leis, que tornam obrigatória a reciclagem de garrafas e limitam o uso de plástico em embalagens (os minifrascos de xampu em hotéis, por exemplo, ficariam proibidos). Com essas medidas seria possível reduzir em 15% o uso de plástico até 2040.
Emporcalhando o planeta
O plástico segue emporcalhando o planeta. A cada ano, a humanidade fabrica 400 milhões de toneladas dele, que se somam aos 9,2 bilhões já produzidos. Segundo dados da ONU, apenas 10% do plástico é reciclado (outros 14% são incinerados para gerar energia, liberando CO2 e substâncias químicas). Todo o resto vai parar em lixões e nos oceanos, onde leva centenas de anos para se decompor.
A solução é óbvia
Deveríamos reciclar muito mais. Só que isso não é apenas uma questão de vontade, e você já vai entender o porquê. A esperança está em descobertas científicas que prometem revolucionar a reciclagem de plástico – e, talvez, torná-la quase tão comum quanto a do alumínio (no Brasil, 98,7% das latas são recicladas).



