
Até meus 7 anos, morei num rincão perto de Panambi. Lá vivi o mais amargo período da minha vida, justamente a parte que deveria ser a mais gostosa da infância.
(por João Lemes) Aqui na região a maioria sabe que fui adotado por uma tia “madrasta”. Digo isso sem querer dar pejoratividade ao codinome. Assim que meu pai morreu, aos 38 anos, eu, com apenas 4, foi “dado” para um tio. Ele era maravilhoso, mas ela…

Foram mais de 24 meses distantes da civilização. Para ir à cidade, só de carroça ou de aranha (espécie de carroça com duas rodas grandes). Minha vida lá fora parecia um isolamento da terra. Sem rádio, sem relógio. Só vendo bichos. Às vezes, a tristeza era insuportável. Como eu chorei sozinho, escondido pelos matos.
Quantas vezes eu avistei ao longe um veículo, fazendo encher meus olhos e acreditar ser minha mãe que poderia estar vindo me ver, ou, para ser mais otimista, até me levar de volta. Mas nada disso acontecia. Nunca era ela no tal carro e só se via o risco de poeira no corredor. Um misto de desprezo tomava conta de meu ser.
Quantas vezes apertei ao peito e cheirei as roupas usadas (e doadas) por meu único irmão (eram 6 irmãs) em busca de um resquício de casa.
A mãe nunca ia lá fora. Lembro-me vagamente de uma visita sua. Chegou trazendo minha irmã mais nova pela mão. Por instantes pensei que a visita significasse o fim naquela situação de minha angústia. Nem lembro se ela demorou. Só sei que, ao vê-la se despedindo dos meus tios, vim correndo para perto assuntar se não me levaria com ela. Bem a tempo de ainda ouvi-la dizendo:
- Vou ter que deixar esta guria aí também. A coisa não anda boa por lá.
A reflexão desta crônica nos mostra que nunca se deve separar um filho de sua mãe, salvo raras exceções, em que a mãe adotiva vira, de fato, a mãe Do contrário, tal separação é submeter mãe e filho ao mais duro sofrimento humano.



