Santiago – Quando você dá um nó para colocar sua sacola na lixeira, seja na sacola azul ou outra, entende que vai ter pessoas abrindo aquela sacola pra encontrar no lixo materiais que podem render algum dinheiro?
Se você pensa nisso é porque tem a consciência de que pode (e deve) fazer a sua parte e separar as coisas da melhor maneira: o que é lixo orgânico, o que é reciclável e o que é rejeito.
Há poucos dias, a jornalista Sandra Siqueira entrevistou a recicladora Maria Isabel Manente Rodrigues, que é uma das pessoas que pode, neste momento em que você lê, estar abrindo uma sacola da coleta seletiva recolhida na frente de sua casa. Ela é a vice-presidente da Associação de Recicladores Santiago, que existe desde o ano de 2017 e faz esse trabalho de recolhimento em 16 bairros. Junto com ela, há outras 10 pessoas que essencialmente tiram do lixo o sustento para alimentar suas famílias. “Há uns oito anos nunca imaginei que iria trabalhar nessa área. Hoje em dia, tenho objetos de dentro de casa que achei no lixo”, explica. “A gente se sustenta, não é algo que diga que está sobrando dinheiro, mas também não falta porque trabalho sempre tem”, acrescenta.
Isabel tem consciência da importância da coleta seletiva e diz que a maioria das pessoas também tem. No entanto, ainda há quem não faça a devida separação e torne o ato de alguém abrir a sacola um perigo. “Tem vezes que colocam garrafas quebradas, copos, sem nenhum tipo de acondicionamento. O ideal é abrir uma garrafa pet (2 litros) e colocar os cacos dentro”, ensina.
Isabel trabalha junto com o marido, Onorato, e é uma entusiasmada pelo trabalho. No entanto, há dificuldades, como a do preço dos recicláveis, que caiu nos últimos anos. “O quilo do papelão, que antes era de R$ 1,15, chegou R$ 0,35”, explica. Segundo ela, projetos como o Pila Azul deram uma força no aumento da quantidade recolhida, compensando um pouco as perdas na venda.
Como as pessoas podem colaborar mais?
Isabel ressalta que a separação é importante. Não colocar rejeitos (fraldas, absorventes, papel higiênico, comidas etc), junto com materiais recicláveis (papel, plástico etc), para evitar a contaminação. Em breve, a cidade terá conteineres específicos para lixo reciclável e orgânico e ela acredita que vai melhorar na separação. Além disso, a cooperativa também tem parcerias de recolhimento com lojas e farmácias, o que é bom para todo mundo.
A Q’Boa mais cara
Pra se ter uma ideia de como o lixo é algo valioso, Isabel conta que certa vez recebeu uma moça apavorada no galpão. Havia botado na sacola azul um recipiente de Q’Boa, só que seu pai tinha guardado dentro uma quantidade de R$ 12 mil. Infelizmente, não havia o que fazer, pois os plásticos haviam sido triturados por um maquinário e o dinheiro virou picote. Em outra oportunidade, numa sacola de papel higiênico foi encontrado um valor de R$ 700. Como não tinha indentificação de nada, repartiram o dinheiro entre os trabalhadores. Um outro fato inusitado, segundo Isabel, foi uma carta de amor que ela encontrou no meio do lixo e que a deixou sensibilizada pelo conteúdo. Chegou a pensar em comentar com as pessoas identificadas na carta, mas entendeu que se a pessoa tinha botado fora, é porque não queria mais saber.
Apoio importante
Isabel ressalta a importância do apoio dado pela Prefeitura aos recicladores. Que a sua associação sempre contou muito com o município, que ajuda de diversas formas, seja em custeio de combustível e, em breve, com a cedência de um galpão, que será no bairro Eletricitários, onde a cooperativa terá um espaço amplo para colocar seus equipamentos e as bags. Mas o maior apoio, o mais sonhado por Isabel, é que a cidade toda entenda que o lixo é necessário e merece o respeito das pessoas, na hora do descarte. Porque quem vai recolher a sacola é um trabalhador. E, afinal, só produz lixo aquela pessoa que teve dinheiro para consumir.
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