Estado – RS – O silêncio de uma criança diante de um policial durou quase 10 minutos. O menino apenas olhava. Depois começou a chorar e contou o que havia vivido. Histórias como essa passaram a surgir dentro das escolas gaúchas depois que a polícia iniciou um programa de orientação e escuta voltado a estudantes. Em apenas um ano, a iniciativa resultou em 71 ocorrências de crimes sexuais contra crianças e adolescentes no Estado.
A iniciativa nas escolas
O Programa Libertar leva policiais a escolas públicas e privadas para conversar com alunos a partir de 10 anos. A metodologia é simples. Primeiro ocorre uma palestra de cerca de 45 minutos sobre violência, riscos e proteção. Depois os policiais se colocam em uma sala reservada para ouvir quem quiser conversar.
Em muitos casos, o aluno apenas tira dúvidas. Em outros, surgem denúncias graves que exigem ação imediata. As ocorrências são registradas pelo próprio policial que realizou a escuta, evitando que a vítima precise repetir diversas vezes o mesmo relato.
Os números da mobilização
Em 12 meses, o programa realizou 164 palestras em 39 municípios gaúchos e alcançou cerca de 12,5 mil estudantes. Desse trabalho surgiram 71 registros policiais, 13 medidas protetivas e quatro prisões preventivas.
Mais de 60% das denúncias envolvem suspeitas de estupro de vulnerável, crime que ocorre quando a vítima não tem capacidade de consentir ou de oferecer resistência. A maioria dos casos envolve vítimas com menos de 14 anos.
Outras situações relatadas incluem importunação sexual e divulgação de conteúdo íntimo na internet.
Os abusadores próximos da vítima
Segundo os policiais que atuam no programa, o agressor quase sempre faz parte do convívio da vítima. Pode ser um parente, vizinho ou alguém da própria comunidade.
Em um dos casos relatados pela coordenação do projeto, a denúncia feita por um menino levou à descoberta de que outras pessoas da família também haviam sido vítimas do mesmo agressor. A revelação interrompeu um ciclo de violência que se repetia há anos.
O impacto nas escolas
Diretores e equipes pedagógicas relatam que as palestras provocam efeito imediato. Muitos estudantes procuram professores ou policiais após os encontros para relatar situações de abuso ou pedir orientação.
Em algumas escolas, as primeiras atividades já resultaram em diversas revelações. Educadores dizem que a presença da polícia no ambiente escolar cria um espaço de confiança que nem sempre existe dentro da própria família.
A responsabilidade coletiva
Para os responsáveis pelo programa, o combate à violência sexual contra crianças depende da participação de toda a sociedade. A escola, o Conselho Tutelar e os serviços de assistência social formam a rede que acolhe e protege as vítimas.
A mensagem central do projeto resume esse desafio: o silêncio protege o abusador. A denúncia protege a vítima.
Redação, João Lemes. Fonte: GZH.
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