Uma disputa de 100 milhões

Santiago foi notícia nacional em um dos programas mais assistidos, o Domingo Espetacular, da TV Record.

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Eis a história de um processo judicial milionário que dura quase 40 anos e tenta determinar a paternidade do taxista José Decarli dos Santos. Falecido há 8 anos, em Carazinho. Essa lacuna o acompanhou por décadas, gerando muita tristeza. Determinado a desvendar o mistério, José embarcou em uma jornada que durou mais de 40 anos. Só que ele morreu sem realizar seu sonho, mas a família segue na luta. A história tem a ver com Santiago, e a família de Octaviano Pereira (dona desse casarão na esquina da praça e muitas fazendas). Em jogo, uma herança avaliada em 100 milhões.

A descoberta

Ao se alistar no exército, José decidiu buscar sua certidão de nascimento. Para sua surpresa, o documento não continha o nome de seu pai e revelava que sua mãe se chamava Elvira dos Santos, e não Maria do Nascimento, como ele sempre acreditara. Essa descoberta o levou a questionar tudo o que sabia sobre sua própria vida. José procurou Elvira, sua mãe biológica, mas a encontrou já sem vida, sendo velada. Essa perda o impediu de obter as respostas que tanto almejava diretamente de sua mãe. No entanto, conhecidos contaram que, após engravidar, Elvira teria se refugiado na casa de parentes na zona rural, onde José nasceu com a ajuda de sua avó, que era parteira.

A adoção

Poucas horas após o nascimento, José foi entregue a um casal em uma estação de trem. Esse casal se tornou seus pais adotivos, criando-o com amor e carinho. José cresceu em Carazinho, no oeste gaúcho, sem nunca desconfiar da verdade sobre suas origens. Um boato dizia que o pai biológico de José seria um médico famoso, rico e influente chamado Décio Henrique Zago (que faleceu aos 100 anos e deixou uma fortuna de 100 milhões), genro do famoso fazendeiro Octaviano Pereira. Décio era casado com dona Manoelinha Pereira Zago, que acabou herdeira dele (falecida em 2017). Essa informação aguçou ainda mais a curiosidade de José.

Acidente revelador

José se tornou taxista e, aos 31 anos, sofreu um acidente em Carazinho. Durante sua internação, o médico que o atendeu revelou que Décio Zago era seu pai, pois pagou as despesas do tratamento. Essa revelação trouxe um misto de choque e alívio para José, que finalmente desvendou o mistério que o assombrava. Gladys, esposa de José, o conheceu enquanto ele estava hospitalizado, após o acidente. Os dois começaram a namorar. José e Gladys se casaram e tiveram três filhos. José faleceu sem conhecer pessoalmente seu pai biológico.

A mãe de José, antes de falecer, disse ter engravidado de Décio Henrique Zago após um relacionamento, enquanto trabalhava de faxineira em seu consultório, em Carazinho. (Na época havia uma cultura machista de repressão de mulheres solteiras que engravidavam). “Nunca houve o reconhecimento oficial dessa paternidade, mas ela sempre afirmou que ele era o pai do filho que ela teve”, conta a esposa Gladis.

José Decarli dos Santos Martins, suposto filho, e Décio Henrique Zago, suposto pai.

Irregularidades nos testes

A família de José Decarli alega irregularidades nos dois testes de DNA feitos anteriormente e argumenta falta de transparência. A viúva dele, Gladis Heinrich Martins, 75 anos, e os três filhos questionam os resultados negativos de DNA e tentam provar a paternidade, mesmo após a morte. Uma audiência decidiu sobre a realização de um novo teste de DNA. O caso, aberto em 1986, tramita em segredo de Justiça.

Corpo cremado

“Quando o médico Décio ainda estava vivo, a família dele não permitiu a entrada da equipe do laboratório para realizar a coleta domiciliar, pois alegou que ele estava doente e condicionou uma nova coleta a autorização médica. Quando uma nova coleta foi agendada, descobrimos que o Décio havia falecido e que o corpo dele havia sido cremado, sem que o juiz fosse avisado”, revela a viúva Gladis.

Na segunda tentativa, após a morte de Décio, a Justiça determinou a coleta do material genético das filhas. No entanto, José Decarli não foi intimado para participar do processo, e não pôde estar presente durante a coleta. A família do taxista alega que não conseguiu acompanhar a coleta do material em nenhuma das ocasiões e questiona a transparência e confiabilidade dos procedimentos.

Um novo exame nos filhos

Como o réu na ação já morreu, assim como um dos autores, o exame deve ser feito em filhos, primos e outros parentes próximos de Décio Henrique Zago.

A amostra genética de José ainda está preservada e poderia ser usada em novo teste, com padrões científicos mais rigorosos. Procurada, a defesa de Décio Henrique Zago não retornou as mensagens e ligações. A defesa dos filhos de José Decarli afirmou que o processo segue em segredo de Justiça e que aguarda a sentença.

Uma história que vai longe

O caso da família Zago continua trazendo reviravoltas. Em meio a idas e vindas, um vídeo publicado pela TV Record – disponível também no portal NP Expresso – revela novos detalhes da disputa. Agora, a família pretende solicitar a exumação do corpo de José para coletar material genético e confirmar se os demais filhos pertencem, de fato, à mesma linhagem. A história promete novos capítulos em breve. Enquanto isso, você pode conferir o vídeo completo no NP Expresso.

Quem foi Manoela Zago?

Ela foi uma das mulheres mais ricas do Estado, mas de sua morte, em 2017, pouca gente ficou sabendo. Alguns familiares até pediram ao Expresso que não publicasse nada, talvez temendo que alguém surgisse atrás de alguma fatia. Ela morava em Porto Alegre e o sepultamento ocorreu em Tupanciretã. Manoela era filha única de um dos maiores fazendeiros do Estado, Octaviano Pereira, natural de Tupanciretã e que veio para Santiago ao comprar a fazenda da Figueira (60 quadras – com sede ao lado do aeroporto) que era da sucessão de Santiago Pompeu. O famoso casarão amarelo na esquina da praça de Santiago também é da família, dentre outras fazendas pelo estado.

O casamento

O antigo jornal A Verdade, de 1947, noticiou o casamento de Manoela com o médico Décio Zago. A festa ocorreu nos luxuosos salões do Novo Hotel Jung, em Porto Alegre. Dessa união nasceram quatro filhas, entre elas a desembargadora Ana Rosa Pereira Zago Sagrilo, que no início de carreira atuou em Santiago.

Gosto pela política

Dona Manoela tinha uma ligação com a política, sempre apoiando candidatos à Assembleia ou ao governo. Uma de suas últimas aparições em Santiago ocorreu em 2003, quando o governador Rigotto chegou à cidade no avião de dona Manoela para inaugurar uma unidade da Braspelco.

Imagem apenas ilustrativa.

Doação ao aeroporto

A área para o aeroporto foi doada por dona Manoela. A doação foi conseguida pelo advogado Antônio Valério, na época em que era vereador do PMDB. Ele também aprovou lei dando o nome de Octaviano Pereira dos Santos (pai dela) ao aeroporto. Octaviano também participou da política. Concorreu a prefeito em 1947 e 1955 (pelo PSD e ARENA) mas perdeu. Em 1968 elegeu-se vice-prefeito, na chapa de Gumercindo Saraiva.

Mais de mil quadras

O escritor Antero Simões, em seu livro “Santiago – Sua terra, sua gente”, escreveu que em 1956 Octaviano tinha 1.300 quadras de campo, ou seja, mais de 113 mil hectares, patrimônio que foi aumentando até sua morte, ocorrida em um acidente de trânsito em 1977, em Santo Ângelo. Octaviano tinha fazendas em São Luiz, Santo Ângelo, São Borja e Itaqui. Para aproximar as distâncias rurais, comprou um avião, sendo pioneiro no uso desse tipo de transporte.

Dois bilhões

Pelo valor de mercado atualizado (em média, 20 mil reais o hectare), o valor das 113 mil hectares que Octaviano Pereira tinha no ano de 1956 valeriam hoje mais de dois bilhões de reais. Só a Fazenda da Figueira (de Santiago), com mais de cinco mil hectares, poderá render 100 milhões aos herdeiros.

LEIA TAMBÉM: Nem reza resolve: São Pedro cancela linhas e prejudica passageiros

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