
Minha vontade é mandar o outubro rosa pra puta que pariu. Nada é rosa nessa história.
Cuidados com a pele para a paciente oncológica? O cabelo caiu, e agora? Mas da vagina, ninguém falou.
(por Natália Martinuzzi Castilho)* Toda minha pele, de dentro e de fora, sente que já não sou quem fui. Bloqueadores de estrogênio de progesterona. LSH e FSH. No fim, tudo o que tornou biologicamente possível a existência de todo ser humano.
Cuidados com a pele para a paciente oncológica? O cabelo caiu, e agora?
Dizer que não dou a mínima para o meu cabelo é exagero. Aprendi a fazer as amarrações nos lenços. Até peruca eu tentei. Mas da vagina, ninguém falou.

Meu primeiro outubro rosa como sujeita do processo. Quem sabe agora. Não! Agora, não! Não suporto mais esse vão, esse abismo.
Meu corpo, minhas regras. Sabemos que isso é para poucas e,
mesmo para essas poucas privilegiadas, como eu, há limites. Até a sua vida depender de instituições que são machistas. Instituições que não te enxergam como um ser autônomo e totalmente vulnerável ao mesmo tempo.
O tratamento é como um fardo que preciso carregar em nome da vida?
Um ser que precisa se sentir um pouco mais humana dentro daquele corpo estranho. Corpo que se torna, da noite pro dia, máquina de combate ao câncer. Tentar normalizar isso me deixa ainda mais transtornada. O tratamento como um fardo que preciso carregar em nome da vida?
Quero parar de normalizar a dor e falar abertamente sobre o tratamento oncológico. Só depois de 10 meses descobri que poderia estar fazendo fisioterapia pélvica desde o início, para aliviar a atrofia vaginal. Sim, vamos dar nome aos bois? Não é secura, não é ressecamento, muito menos falta de libido.
Lembro das vezes em que me senti desconfortável por tocar (de novo e de novo) no assunto da dor, nas consultas. Era como se eu estivesse insistindo demais e, de tanto parecer insistente (e de quebra uma maníaca sexual), de repente, para o médico – eu desisti. Sim. Ter câncer é isso e muito mais.
Minha vontade é mandar o outubro rosa pra puta que pariu. Nada é rosa nessa história.
Nada é rosa nessa história. Esse rosa, nas circunstâncias atuais e a partir da minha trajetória (e das milhares de mulheres que sofrem opressões bem mais severas que eu), parece reproduzir todas essas estruturas machistas ainda gritantes nessa jornada do jornada do tratamento.
Por tudo isso, por todo o fardo que carregamos por sermos mulheres e por todo o sangue e toda a dor derramada em silêncio, outubro deveria ser outubro vermelho.
*Professora do curso de Direito da Unichristus – Fortaleza. Mestre em direito público (Unisinos, RS). Doutoranda em direito (Unicap, PE).



