(Por Luana Diello, Santiago, RS)
O caso da professora que encontrou vidro em seu copo de água dentro de uma escola pública em São Paulo não pode ser tratado apenas como mais um episódio de violência escolar. Felizmente, ela não chegou a ingerir a água, mas o que permanece depois desse episódio vai muito além do risco físico. Ficam o medo, o abalo psicológico e uma pergunta que deveria inquietar toda a sociedade: que tipo de infância estamos formando quando atitudes como essa passam a fazer parte da realidade das escolas?
As escolas são diariamente criticadas por resultados que extrapolam a grade curricular. Entretanto, na educação contemporânea, muita coisa mudou, já que o ensino de disciplinas como Exatas, Artes e outras que desenvolvem a criticidade tem o tempo letivo constantemente interrompido por demandas disciplinares. A equipe escolar precisa construir ações para lidar, na maior parte do tempo, com o ensino de limites, convivência, responsabilidades e até higiene pessoal, sendo esses deveres dos pais.
Por trás de alguns alunos agitados escondem-se crianças que sofrem e precisam, urgentemente, de uma rede em que exista um adulto que exerça a autoridade com responsabilidade. Não é culpabilizar as famílias, mas convidá-las à reflexão, já que escola, família e sociedade andam juntas, e a escola nunca vai substituir a convivência familiar.
O uso excessivo de tecnologias virou moeda de troca. Quantas vezes o celular é entregue para que a criança faça uma refeição em silêncio? Quantas vezes substitui uma conversa, uma espera, um “compramos na volta”? Aos poucos, a tela deixa de ser ferramenta e passa a ocupar o lugar do adulto e, com isso, sair do quarto, interagir ou ajudar em pequenas tarefas dentro de casa torna-se tedioso, a não ser que exista algum tipo de recompensa.
Nossas crianças precisam aprender a seguir regras e viver em harmonia na sociedade, organizar a própria cama, sentir frustração, aprender a fazer silêncio quando o pai ou a mãe estão descansando e entender que não é não. Precisam compreender que dá para conversar sem gritos e interrupções. A vida nem sempre cabe nas gírias da internet, nem sempre é incrível ou divertida o tempo todo. A vida real exige espera, frustração e responsabilidade, e estar sempre conectado pode ser uma boa alternativa para esconder nossas fragilidades.
Podem ser criadas mil políticas públicas, e os professores mais qualificados podem ser contratados, mas, se em casa as crianças não tiverem rotina e aprenderem que a liberdade vem acompanhada de responsabilidades e que existem consequências para tudo na vida, situações iguais ou piores à do copo com vidro começam quando os adultos temem ensinar o básico. O problema é que queremos ser bons pais, mas bons pais colocam limites em seus filhos. E isso dói.
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